—Póde um dia o nobre fidalgo a quem a destina pedir contas d'essa peccaminosa aventura...

—Noto a insistencia com que vossa reverendissima aggrava o alcance d'essa creancice, condemnavel, sim, mas pura creancice. Sabe por ventura alguma coisa?

—Sei o bastante, senhor morgado. Elle é um perverso, um hereje, um liberal; em conclusão: um depravado capaz de tudo.

—Mas minha filha é uma fidalga, e as fidalgas estão muito acima d'esses miseraveis, para que a sua intimidade se lhes torne perigosa.

—Na minha qualidade de director espiritual d'esta casa, é-me permitido manifestar as indicações que faz o Creador ás creaturas servindo-se dos seus intermediarios. Assim, senhor morgado, dir lhe-ei que uma voz occulta brada em meu peito: «Quero-a para mim! Quero-a para mim!» Significa isto que está indicada a clausura como penitencia da leviandade, e como resposta aos malvados constitucionaes que se arrojaram a cubiçar os bens de V. Ex.a para as suas obras de Satanaz.

—Se fôsse uma filha segunda já lá estava. Mas é uma morgada, não a hei de meter freira.

—Não digo que professe, senhor Martinho Vasques. Aconselho apenas que a mande para o convento, como castigo pela sua imprudencia, e como resposta á seita jacobina. Se mais tarde o Senhor lhe inspirasse a vocação, ver-se-ia. A verdade é que fazendo-a passar pelo claustro, ficava quite V. Ex.a para com seu genro. Creio que a senhora D. Maria só foi attingida na sua bôa fama. De mais graves estragos, porém, tem ido refazer-se jovens fidalgas ao seio das virtuosas madres, e bastou isso para que seus nobres esposos se dessem por satisfeitos.

Meditou um pouco o morgado, e respondeu:

—Não posso deshabituar-me da ideia de que hei de vêr um neto varão, já que Deus não me deixou vingar um filho, que succedesse no meu appellido e nos meus bens. Quanto ao mais, não tenha receio. Minha filha leva um magnifico dote, e por minha morte ficará bem. O primo, que pouco possue, alem da herdade perto de Evora, e do seu grande nome, terá toda a conveniencia em não dar ouvidos ás intrigas.

—E a senhora D. Maria quererá casar com elle?