E como o frade se interpozesse, querendo abrandar o morgado, que bufava, apopletico:

—Entremos no assumpto que aqui me traz. Recebeu a justiça uma queixa de que jaz ha muito tempo em carcere privado e recebe maus tratos, a senhora D. Maria. A insistencia com que recusou apresentar-m'a confirma a queixa. Ora nem v. ex.a nem pessoa alguma póde encarcerar por seu arbitrio quem quer que seja.

Martinho Vasques desabafou:

—Sente-se bem, no irritante do seu falar, que por terem vencido uma escaramuça, e haver o temporal desviado a esquadra, tem o rei na barriga, e se lançam em desenfreadas vinganças. Agora trazem a anarchia ao seio da familia! Já nem respeitam a santidade do lar!

—O despotismo familiar não o respeitamos, nem o consentimos. É da lei, que temos obrigação de cumprir.

—Essas malditas leis constitucionaes...

—Já as ordenações do reino o prohibiam, mas eram letra morta as medidas que defendiam os fracos, pois gosavam da impunidade os poderosos como v. ex.a. Hoje a lei é egual para todos, quer premeie quer castigue. Eu proprio, por esta mesma diligencia posso ser julgado se me exceder. São regalias que custaram muito sangue, e hão de custar ainda mais. Mas o poder despotico de maltratar, de torturar, acabou para sempre!

—Se quer que o respeite—bradou o morgado—não alluda mais ás intrigas tecidas por um atrevido que fui forçado a expulsar d'esta casa.

—Saiba, senhor, que a justiça não se rebaixa a intrigas. Ha uma queixa em fórma, com testemunhas, contra o seu procedimento.

—Uma queixa d'esses reles soldados...