—Que faz, senhor?
—Quero despedir-me de minha filha!—tartamudeou Martinho—Não me assiste esse direito?
Replicou o corregedor com repugnancia:
—Esta senhora não o evitaria, se fosse um movimento sincero. Está n'essa repulsão o seu maior castigo.
Atirou-se o fidalgo, esmagado, para uma cadeira, os olhos queimados de lagrimas de desespero, fechando os punhos em crispações nervosas:
—Ah! Que se eu a abraçasse, ia esta noite ceiar com Christo!
Entrou D. Perpetua, já de manto, o rebuço deitado para traz, ajudou-a a vestir a saia de merino, atou-lhe o capuz á cintura e deitou-lh'o pela cabeça, emquanto ella se despedia, abraçando-a e beijando-a:
—Perdôe-me o passo que vou dar, e peça a Deus que me faça feliz.
—Não o serás!—exclamou o pae—porque eu te amaldiçôo! Permitta o Senhor, filha desnaturada, que caias tão baixo que ainda venhas aqui de rastos, coberta de bichos, pedir uma côdea á porta d'esta casa que deshonraste. Deus te amaldiçôe, como eu te amaldiçôo!
—Vamos, minha senhora, tenha coragem!—disse o juiz, dando o braço a Maria, e encaminhando-se para a porta, sem se despedir, indignado por semelhantes palavras.