—Pois meu amôr, em vez de a lamentarmos, o que não lhe serve de nada, tratemos de a arrancar d'essa maldita casa. Requer-se uma acção de separação, prova-se com o testemunho da creada e do mulato o carcere privado, vae lá a justiça, e...

—Exactamente como a mim. Mas de que me serviu, se sou tão infeliz como d'antes ... talvez ainda mais? De que servem essas leis, de que vocês fazem tantos escarceus, se me tiraram de uma prisão para me meterem n'outra, não nos deixando casar, como desejamos, senão quando eu tiver vinte e cinco annos; se permittem que uma pobre mulher esteja encerrada, pela vontade do marido, embora um juiz ouvisse que ella não queria viver em casa? Não, a felicidade não depende da alçada das leis, nem da vontade dos homens; a felicidade está na mão de Deus, e os que, como nós, o teem offendido, não a podem esperar nem n'este mundo, nem no outro!

Encarou-a João, como a lêr-lhe no olhar, e depois respondeu commovido:

—Dizes bem, dizes, não depende das leis a felicidade, nem de nós proprios, mas dos que nos educaram, dos que nos formaram o espirito, e que governam sempre dentro em nós. O que os principios porque nos batemos hão-de impedir d'aqui em diante, é a sementeira do mal, o obscurecimento dos cerebros, a aniquilação das consciencias.

E sobresaltado por uma desconfiança, que como um relampago o esclareceu:

—Por mais que negues, anda frade n'isto! Não é assim?

Accentuou-lhe a suspeita a confusão d'ella:

—Dize-me tudo. Não pódes ter segredos para mim! Sou como teu marido, desde que por minha causa abandonaste teu pae. Falaste com algum religioso?

Negou ella, frouxamente:

—Não, não falei.