—Perdôa, mas não te acredito. Veiu aqui alguma d'essas aves de mau agouro!
—Como me custa ouvir-te falar assim!
—Mas veiu ou não veiu algum santo ministro do Senhor?
—O padre mestre, confessor de minha tia, sim. Vem cá muitas vezes esse santo homem: que eu distingo bem fr. Angelico d'elle, mas nem me falou, nem eu ouvi o que diziam.
—Então é intriga tecida por elle! Tem cá entrada. Mas que admiração, se em cada rua ha um convento, se a cidade é d'elles mais que dos moradores!
E aproximando-se muito, tomando-lhe as mãos, n'uma voz grave, mas baixa como um murmurio, para que não o ouvisse D. Victoria:
—Ah, minha querida Maria, que te querem roubar-me! Por amor de Deus desvia-te d'elles, não lhes dês ouvidos, considera antecipadamente como envenenadas as suas palavras! Querem separar-te de mim, pretendem desforrar-se do meu triumpho. E se ainda me queres bem, como o provaste, recusa-te a ouvil-os, quer falem em nome de tua mãe, que desgraçaram, porque foram elles que a inutilisaram, pergunta-lh'o um dia, se puderes; quer te falem em nome de Deus, que trazem sempre nos labios, tendo o demonio no coração!
Maria respondeu com lagrimas na voz:
—Pois pódes duvidar de mim, ao passo que dei! Eu, uma morgada, esquecer-me do respeito que devo ao meu nome, por amor de ti! Eu, uma fidalga, expôr-me a commentarios vergonhosos...
E não poude mais. Afogada n'um choro convulso, que disfarçava tapando a bocca com o lenço, virando para as gelosias os olhos requeimados.