—Mas se vocês são assim, e eu acredito que, pelo menos tu, és como dizes, para que horrorisam os crentes com esses aggravos?

—Que lucravamos com isso, tontinha! São elles que os inventam e praticam, e mostram depois as cruzes derrubadas, para incitarem contra nós esse pobre povo que queremos emancipar.

Por fim Maria resignou-se. Tinha de ser d'elle. Estava escripto que para o conseguir haveria de passar todos aquelles tragos. Pois que remedio. E João confiava mais n'aquelle fatalismo, na teimosia d'ella em levar a sua ávante, que em a ter convencido das artimanhas fradescas.

Parecia-lhe que mal tinham começado a falar, e já os interrompia a tosse pontual de D. Victoria.

—Josepha, fecha-me aquella janela, filha. Em caíndo a tarde, começa a peitogueira ás voltas commigo.

Era da praxe n'esta altura interessar-se João pela saude d'ella, não o fazendo ao principio para não cercear o tempo da entrevista, e poder demorar-se depois, um pouco mais, junto de Maria.

Deixara-se sempre illudir a velha.

—Aquelle peito era uma panela a ferver, a referver, á tardinha principalmente. Bastante gastára em promessas a S. Braz e Santa Margarida, advogados contra o mal da garganta, e a S. Tude, protector contra a tosse, mas cada vez se sentia peior.

Trazia João engatilhado um repertorio de drogas e esvasiava as algibeiras de uma provisão de papeis e embrulhinhos.

—Aquella era a receita de um xarope, invenção da tia Pulcheria, que lhe tirára uma tosse convulsa, depois de já ter sido chamado o Craca para lhe tomar medida do caixão; estas pastilhas fizera-as o senhor Juvencio de encommenda, com tudo quanto havia de melhor e mais approvado.