E emquanto se prolongava o colloquio, deliciando-se D. Victoria em queixar se de todos os seus males, Maria e Josepha, como na quinta, riam enlaçadas ao fim do corredor, desafiando João.
Pingavam trindades, erguia-se a velha com esforço e benzia-se unctuosamente, murmurando as ave-marias e a gloria-patri; e João, emancipado em casa, transigia ali, imitando-lhe os gestos e mexendo os labios em furtadelas de olhos para o corredor, no que Maria julgava, enternecida, vêr uma satisfação aos seus escrupulos, embora a maldosa Josepha a desiludisse, elogiando as inexgotaveis manhas do namorado.
Forçava-o o lusco-fusco a despedir-se, e então seguia pelo corredor, já escuro, emquanto Josepha avançava á sala a fazer-lhes costas, entretendo a mãe, e a sua verdadeira entrevista era quando elle a beijava apaixonadamente, ao propositado ruido de abrir a porta da rua.
Dissipavam-se os receios de Maria, defendendo-se inhabilmente dos beijos:
—Mas como tu estás atrevido. É da farda! Olha que te fica a matar! E porque é que nunca me beijaste quando estavamos juntos?
—Não sabia se gostavas de mim.
—E agora sabes?
—Percebe-se.
—E porque não percebias então?
—Nem tu mesmo o sabias.