—Deixe-me desabafar, fr. Angelico, que ha tanto tempo não o faço. Já não ha religião, já não ha respeito filial, já não ha Deus!
Mãos postas, olhos em alvo, voz de cana rachada, exclamou o frade, simulando um devoto horror:
—Não blasfemes, creatura, contra o teu Creador! Curva-te á vontade do Altissimo, que a tua expiação está terminada!
E mudando de tom:
—Alegrar, senhor morgado, que ha grandes novas!
—Por isso vim, fr. Angelico. É então certo que voltaremos aos bons tempos?
—Só podiam duvidar gentes de pouca fé.
—Pois eu julguei-me abandonado do céo!
—Espere em Deus, que é pae da misericordia! Sempre ha de haver frades, sempre ha de haver religião! Vae em dezanove seculos! Havia de acabar assim, quando já resistiu ao proprio demonio, na pessoa de Luthero; ao anti-christo encarnado em Bonaparte? Estes pandilhas não valem nem um nem outro.
—E agora?