Tinha porém, curiosidade de conhecer o que fizera o frade:

—Ia dizendo...

—Que não me dei por vencido pelos inimigos de Deus. Pratiquei n'esta egreja uma das obras de caridade, ensinando os ignorantes, castigando os que erram, e a filha desobediente ouviu n'um terrivel sermão...

—Já sei.

—Mas não foi só isso! Os miseraveis julgam que com garatujas n'um pedaço de papel governam tudo, e afinal somos nós quem governamos e havemos de governar sempre. O nosso reino não é d'este mundo, as nossas armas são espirituaes, e as crenças religiosas ligam-nos para sempre os cordeirinhos embora desgarrados, promptos a voltarem ao aprisco mal os ameaça o lobo da heresia.

—Acabe!—pedia o morgado impaciente.

—Trouxe sempre vigiada a innocencia por outro grande pastor d'almas, o nosso padre mestre, que tem feito ver a sua prima D. Victoria o peccado que commetteu. Ella, que é uma mulher de vergonha...

—Uma descarada!—protestou Martinho Vasques—Fazer-me o que me fez! Mas não admira, a fama que ella sempre teve, com a casa cheia de frades...

Tocado na corda sensivel, voltou fr. Angelico ao pathetico:

—Calumnias, meu senhor, calumnias espalhadas pelos filhos de Satanaz. Não ha nenhum director espiritual d'essas santas senhoras que não tenha sido conspurcado na sua virtude, na sua innocente castidade. Até sei pelas suas creadas que a senhora D. Perpetua, n'aquellas terriveis convulsões em que parece possessa do inimigo, diz contra mim coisas de se abrir o chão, decerto inspiradas pelo proprio demonio, como vingança contra o varão forte que por tanto tempo lh'a defendeu das garras.