Mas D. Perpetua, temendo ficar só, chamou-a afflicta para junto de si:
—Filha, não sei se tornarei a vêr-te, que elles são capazes de te fechar, ou até de te estrangularem, como já me teem querido fazer.
E o seu espirito doente confundia a realidade com a allucinação:
—Quero confessar-me, Maria, que estou para Deus me levar; mas ha-de ser a ti, filha, que não creio no fr. Angelico nem nos outros malditos!
Sacudia-a a convulsão, entortavam-se-lhe os olhos, ficava-lhe a bocca arrepanhada ao lado, asphyxiava-a a escuma sanguinolenta, que Maria limpava compadecida.
—Quero confessar-me a ti, sim, filha—voltava ella n'uma insistencia pavorosa, olhos esgazeados, a voz cortada, difficil de perceber—Tenho um grande remorso, um peccado mortal, e tu, que estás uma mulher, pódes comprehender-me e perdoar-me.
Pedia-lhe que socegasse, mas ella tinha a ancia de falar:
—Fui rapariga como tu, e não tive a felicidade de encontrar um rapaz como o que amas, que é o brio dos homens, ao que tem feito por ti. Ha tanto quem possa ser feliz e tanto quem nunca o poude ser! São destinos. Eu enganei-me sempre, e querendo tornar-me ditosa fui ludibriada por teu pae, e vi-me casada com elle sem amor.
N'uma explosão de raiva e nojo, em arrancos como se vomitasse, contou-lhe a torpe ligação ao frade, a maneira como elle a explorára e como por fim a tratava, unindo-se ao marido contra ella.
Então Maria comprehendeu o sentido das allusões de João e Josepha, certos sorrisos surprehendidos em beiços de creadas.