—O que mais me custa, Maria, é conter-me, lançar ao papel essas mentiras, em vez de lhe dizer as duras verdades que merece!
—Ninguem o convence.
—E elle tirava-te logo d'aqui.
—Se suspeitasse o que a tia tem sido para mim!
—Não ha remedio senão dissimular, que felizmente ha de ser por pouco tempo.
—Agradeço lhe a bôa intenção, D. Anna, mas já não espero ver fim a isto.
—Pois não vês que a falta das cartas em que elle teimava para que professasses, não querendo que um dia viesses a casar, mostra que já não tem cabeça para nada? Sempre que os liberaes ganhavam um palmo de terreno, apertava-me elle para que te lançassem o habito. Agora não tuge nem muge. Que mais queres?
—Talvez desconfie da sua amizade por mim.
—Como? se só tu a conheces, e não ha muito tempo, porque ao principio fui para ti o que tinha sido para todas, retrahida, reservada! Quando me encerraram aqui, os escandalos com que enxovalham a casa de Deus, que, como tens visto, serve para as mais torpes devassidões, não me desmoralisaram como ao geral das que cá veem parar. Fizeram-me conservar á parte, sem me prestar a ditos e mexericos, sem beberetes na cella ou na grade, sem dar confiança a nenhuma. Segui sempre com sympathia os liberaes, porque bem sabia que elles libertariam as pobres enclausuradas. Mas não me manifestei aqui dentro, porque de nada servia, como as freiras constitucionaes postas a pão e agua no carcere, forçadas a penitencias vergonhosas diante d'essa communidade de descaradas, transferidas para longe dos seus. Calei-me sempre, mas trago no exercito libertador soldados armados e pagos por mim, por via de encubertos liberaes d'esta terra que fazem o mesmo, a occultas, para que não os roubem e assassinem.
—Pois tem feito isso?