—É que ha mulheres, e mulheres; e as mais felizes, como tu, pelo amor que lhes dedicam, são afinal as que menos o merecem!
—Tenha dó de mim, não me trate d'essa fórma!—supplicava ella.
Então compadecera-se D. Anna, e pedira-lhe, mudando de tom:
—Não tornas mais a falar em profissão, haja o que houver?
—Não, não torno.
—Pois bem. Ouve-me agora serenamente. Que te disseram d'elle? Que estava ferido? Pois bem, ha-de curar-se, e eu tenho maneira de saber exactamente o seu estado, mas não dês credito senão ao que eu te disser, e cala-te com isto.
Depois, n'um enthusiasmo que contrastava com a estudada placidez usual:
—Que elle viva ou morra, os liberaes hão de triumphar, pois ao que se tem soffrido não é possivel vencel-os, pelo desespero com que se batem. Os conventos acabaram, e temos de saír todas d'estes logares de maldição. Mas os votos ninguem os tira, os padres não casarão as que os tiverem. E aquellas que perderem a mocidade, já nada do mundo lh'a póde restituir!
Então afogaram-a as lagrimas, e revelou-se tal qual era:
—Tambem me contrariaram um amor. Fugi com o meu noivo, mataram-m'o, mas tenho vivido desde então evocando as horas em que me pertenceu. E esse amor foi o meu culto aqui dentro, a minha religião, porque a outra perdi-a pouco a pouco, ao vêr da parte de dentro os ministros do Senhor e as suas esposas, os que communicam com Deus, os intermediarios da sua graça, do seu perdão!