Tinham as duas mulheres abandonado a grade e, correndo á sala das visitas, metiam-se de permeio.
João respondeu commovido:
—Senhor, acolhemos a todos com o perdão, abrimos os braços aos camaradas a quem a sorte das armas foi adversa, e n'esta hora solemne não ha logar para rancores. Fraternisam os filhos da mesma terra. Pois perdôe-nos tambem v. ex.a, e a nossa alegria lhe fará esquecer os seus desgostos.
Dava as mãos a Maria, devorando-lhe com os olhos o rosto muito branco, onde as olheiras pareciam mais fundas, e a dentro d'ellas maiores os bellos olhos claros, que a melancolia enriquecera de ternura.
Embevecia-se ella no tostado rosto de João, envolto na fina barba, bebendo a vida n'esse firme olhar que adquirira lampejos de energia varonil.
—O vosso perdão não passa de uma caridade de phariseus!—atirára-lhe o morgado em resposta.
Debalde procurava D. Anna convencel-o, emquanto João e Maria se contemplavam, anciosos por se abraçarem.
Ainda ella teve coração para sentir o desespero do pae:
—Fique comnosco, senhor! Na nossa ventura ha logar para si.
—Não! Não!—retorquiu teimoso o velho—Já não tenho filha, já não tenho familia! O meu logar é junto do principe proscripto.