Revia D. Miguel na commoção da retirada, abotoado na sobrecasaca azul, de chapéu á Napoleão; dando a mão a beijar ao povo fanatisado, com cuja ignorancia se identificava, merecendo o mesmo perdão pela inconsciencia em que viviam; alheio ás transformações do tempo, contando ainda com o milagre; victima tambem, elle o chefe dos algozes, victima da mãe quo o incitára, do anterior estado social que o educára, o tornára a sua bandeira, o seu symbolo, e agora o arrastava comsigo.
João tambem lhe pediu.
—Não! Não!—insistia o morgado—Somos o passado, que não transige! Tambem ha de chegar o nosso dia, e S. Miguel Archanjo ha de voltar! Adeus, filha desventurada. O meu logar é junto d'elle.
Ainda correram á janella.
Afastava-se aniquilado, braços pendentes, sem o bordão que lhe dava o ar magestoso, sem a espada a que se apoiava, desempenando-se; irreconciliavel como o passado que ia afogar na sombra do tumulo a sua amarga desesperança.
—Só tu me restas, João!—e Maria deitou-se-lhe ao pescoço.
—Ha quanto tempo que podia ser!—queixou-se elle, ainda cioso da felicidade esperdiçada.
—Não te amava tanto como agora! Sinto-o hoje, porque só sabe amar quem soffreu muito!