—Vieram más novas?

Voltou Fulgencio a falar-lhe entre portas:

—Não vieram das melhores, não. Olha, ahi tens gazetas fresquinhas, chegadas hontem, n'um navio da laranja. Vae-te entretendo, emquanto eu avio a gente do monte, para ficar com as mãos livres, se tivermos dança.

Era domingo e, conforme o uso, viera ás compras muito povo do campo. Estava a botica cheia de cabaças, de alforges, de sacos de estopa. Em cima de mezas alinhavam-se tijelas onde Fulgencio, de espatula em punho, ia despejando boiões de unguento.

Devorava João as pequenas folhas, de um palmo de largo, por palmo e terça de alto, a duas columnas, encimada pela corôa portugueza, entre Gazeta e de Lisboa, do titulo.

Vinham cheias de saudações a D. Miguel pela «exaltação ao throno dos seus maiores»; da lista dos «donativos voluntarios», extorquidos pela policia e pelos caceteiros sob a ameaça da denuncia por liberal; de congratulações officiaes pela victoria das tropas fieis contra as rebeldes.

Na ultima pagina do n.o 184, de 4 de agosto, figurava o annuncio do retrato de D. Miguel, em ponto grande; para medalha e caixa de rapé a 40 réis a duzia, em preto, a 240 illuminado; para medalhas mais pequenas respectivamente a 30 e 160 réis; para anneis e alfinetes a 20 e 120 réis.

Publicava a Gazeta n.o 182, de 2 de agosto, o «Assento dos tres estados», em que se declarava D. Miguel rei absoluto, absolvendo-o de haver jurado falso com essa interpretação do juramento, que João lia assombrado: «irrito ou nullo quando cae sobre materia illicita, quando é extorquido pela violencia, quando da sua observancia resultaria necessariamente violação de direitos das pessoas e dos povos, e sobretudo a completa ruina da nação.»

E os jornaes continuavam a bater a nota das felicitações a D. Miguel e ás tropas.

Que significava aquillo?