Puxava o carcereiro os presos para dentro, n'um ar compungido, mas severo; obediente ás ordens, mas doendo-se da sua execução; injuriando os renitentes entre abundancias de «valha-me Deus»; e só não levava o seu rigor ao ponto de fechar as janelas, porque não tinham portas, bastando á justiça o gradeamento para que não fugissem os presos, e convindo-lhe que a chuva molhasse o lagedo, afim de que ao saírem os condemnados, expiada a pena, se tornasse mais salutar o seu exemplo por irem tolhidos para o trabalho.

Cumprida a ordem, ia entregar-se Benicio ao formal desempenho da sua missão de chaveiro, vigiar a porta chapeada de ferro; e sentava-se junto d'ella a untar de azeite as chaves do postigo, dos cadeados, do segredo, do alçapão por onde se despejava cal para aplacar as desordens, fechando por calculo os olhos ao negocio e os ouvidos ao falatorio, para que «os pobres de Christo», coitados, podessem fazer o seu vintem, tanta gente juntára o Senhor n'aquella praça; que elles afinal não eram maus rapazes no seu fadario, «valha-os Deus», são sortes, e até no fundo eram generosos, recompensando-lhe a caridade com que os deixava fazer pela vida.

Voltavam os presos pouco a pouco ás grades, metia-se á formiga o povoleu pelas arcarias, e recomeçava a cantilena do «eu te requeiro da parte de Deus e da Virgem Maria», efficaz para desembruxar almas penadas; o pittoresco do «e vae o senhor D. Miguel ferra-lhe com o rojão mesmo no sitio»; a «Chamarrita, chamarrita, chamarrita, chama Rosa» das cantigas do baleeiro; e a giria commercial do Mujinha «Ó meu rico freguez, perco n'esta gaiola metade do que dei ao homem que me foi apanhar os caniços», o chamariz com que ganhava perdendo sempre.

N'aquella mesma praça, com essa mesma gente, recordava João, fôra celebrado ha dois mezes, em 22 de junho, o triumpho da liberdade e da Carta, a revolução liberal do Porto de 18 de maio.

Agora, em vez da alegria d'essa manifestação, o receio de que tudo se desfizesse n'um momento. Estremeceu ao lembrar-se como então, de subito, ficára o chão regado de sangue do povo, no tumulto provocado pela malvadez de um padre, e em que a cobardia da soldadesca, disparando para intimidar, matara quatro indefesos homens.

Mas tranquilisou-se observando melhor. Não se via nem padres nem soldados: não havia perigo.

Fez a impaciencia de Juvencio extravasar a dos mais.

Se por si só o conselho não tinha força para demover o commandante, era tempo de intervirem.

Acharam-lhe razão, e do grupo separou-se logo, sem dizer palavra, Cypriano da Costa Pessoa, um negociante alquebrado pela doença e pela edade.

Subiu alguns degraus da escada de pedra, amparou-se ao corrimão, e voltando-se para o povo descobriu a cabeça embranqueçida e dispoz-se a falar: