N'um fremito de terror echoava aos ouvintes a ameaça, correspondente á absoluta verdade:
«Não tardará o massacre de quantos liberaes elles puderem colher ás mãos!»
Ante os olhos apavorados dos que se viam, d'um momento para o outro, sob a alçada do carrasco, passava o rosario de crimes absolutistas, as perseguições de Stokler ali na ilha, a prisão e deportação dos deputados ás côrtes constitucionaes, a captura em massa operada pessoalmente por D. Miguel, de aguilhada em punho, os nove estudantes enforcados no Caes do Tojo, as covas abertas em Portalegre á porta dos liberaes, a tortura de Renduffe, o envenenamento de D. João VI, o assassinio de Loulé.
Iam ficar sujeitos a taes horrores se caçadores 5 abandonasse a ilha.
E nas faces consternadas reappareceram as lagrimas.
Mas nem Cypriano da Costa, nem os liberaes do seu grupo se mostravam desanimados.
Cheios de fé, queriam luctar e appellavam para o auxilio de todos.
Por essa praça, tão divertida em tardes de toiros e cavalhadas, resoava a mesma voz grave, sentida:
«Para desviar este mal tão imminente, poupar a nós e a nossas familias, amigos e parentes, convém que já, já, os amantes da patria e da boa ordem vão offerecer-se ao governo, alistando-se voluntariamente para servirem debaixo das armas!»
Ficou abalada a concorrencia, e a ideia emittida do alto agitou por camadas a turba, enthusiasmou os liberaes mais proximos, perturbou os mestres de officios, entonteceu as cabecinhas de capuz escarlate, revoluteiou as dos amplos capellos, e por fim saccudiu em tardas negativas os barretinhos de borla, de malha amarela e vermelha, e as carapucinhas de panno preto, em forma de tijela, talhadas em quartos como barretes de clerigo, dos camponios.