—Não sabe o que ella tem? Sei eu. É que vae saindo á senhora, herda-lhe as boas prendas, porque não tem outras que herdar.

Respondeu em furia de hysterica D. Perpetua, envidraçando os olhos que só para o frade se enterneciam:

—Vejo que o senhor ainda está com os destemperos de hontem. Já nem sequer o dormir lh'as coze.

Não se escandalisou o morgado, acostumado a essas violencias, e continuou:

—Por causa de sua filha houve hontem n'esta casa um escandalo. Não quero que se repitam, nem que ella faça o que a senhora toda a sua vida fez.

—O que eu fiz? Mas o que é que eu fiz, senão caír nas bocas do mundo por causa dos atrevidos do seu jaez. Por ter sido sua victima sou culpada? E então que nome merece o senhor, que com a sua brutalidade abusou da minha innocencia?

Riu Martinho estrondosamente:

—A innocencia de uma menina de vinte e quatro annos, creada n'um convento de freiras, acostumada ás denguices das grades, á intimidade dos primos, sabida em poucas vergonhas de namoros. Innocente, a senhora!

—Ria-se, ria-se. Mas não se riu quando o pae que Deus tem, que o conhecia por dentro e por fóra, o agarrou pelas orelhas: «Has-de casar, maroto, ou mato-te como a cão damnado, porque me enxovalhastes a filha». E o senhor tudo eram escrupulos do que se dizia, porque torna porque deixa, só por eu ser filha segunda, e andar á cata de herdeiras ricas. Quando viu sacos de cruzados não quiz saber de famas, de ditos nem mexericos. Meteu-me aqui dentro, tratou-me sempre como uma escrava, fez de mim esta desgraçada, mas plantou novas cepas para se emborrachar á vontade, e concertou este pardieiro onde chovia como na rua.

E n'um gesto longo abrangeu as paredes de cantaria de onde a cal despegava, o forro do tecto embarrigado pelo peso da telha, com lôstras de amarelo sujo, escuras ao centro, esbatidas para os bordos, da agua da chuva represada pelos coiceis, nascidos nas toiças de terra entre os regos; vertida pelas telhas rachadas por garotos que varejavam á funda os altos alamos, á caça de melros.