—Mente!—protestou o morgado contra a insinuação de interesseiro.—Cumpri apenas um dever de honra.
Riu convulsamente D. Perpetua, tendo perdido na intimidade o respeito á importancia que elle se arrogava ante os estranhos, impressionados pelo traje de côrte, á antiga, que o marcava como homem de outros tempos, tornado respeitavel á força de velho.
—A sua honra! Deixa-me rir! Quando o chamaram a Lisboa para a guerra com os franceses, o senhor, apesar da sua patente de capitão, não quiz saber de palavras bonitas, e deixou-se ficar no quartel de saude, como diz mestre Jacintho.
Iam comendo e insultando-se, na rotina de trinta annos de rancor.
—Como ha-de comprehender escrupulos de honra quem nunca os teve!—commentou o morgado.
Insistia D. Perpetua, muito teimosa, desabafando o odio ao longo captiveiro em que a mantivera:
—A sua honra, a sua embofia de fidalgo, que não o impediu de explorar como um judeu o primo Chico, pondo-o ao descimento da cruz com os seus contractos de avarento.
—Se a senhora não havia de defender esse reles picador de toiros!
—Que quer dizer com isso?
—Bem sabe o que fez, mesmo depois de casada, sua descaradona!