—Não tem senão lingua! Não lhe dar um estupôr que lh'a puzesse lesa!

—Tambem tenho mãos!—explodiu elle n'uma ameaça, dando um murro na meza, mostrando o punho fechado.—Não queira tornar a conhecel-as!

Sentindo reviver a offensa dos bofetões que a atiravam ao chão, replicou arripiando-se como uma gata:

—Conheço-lhe as mãos, covarde, mas o primo conhece-lhe a cara. Ainda o estou a vêr, quando cá veiu, muito enfiado, por causa da quinta do Pico da Urze: «Tu ficaste-me com as terras, pois então fica-me lá tambem com esta». E traz! Emplastou-lhe os cinco dedos nas bochechas!

Terminára o almoço, e ambos se ergueram de mãos postas, dando graças a Deus.

Vendo ainda vinho no fundo do jarro, deitou-o Martinho no copazio, atirou-o á bocca e chamou a mulher:

—Oiça as minhas ordens.

Voltou-se D. Perpetua no habito de servidão adquirido n'uma vida inteira de obediencia, em que apenas havia a revolta das más palavras, que para o isolamento de ambos se tornára n'uma necessidade.

Ditava o morgado, sobrancelhas contrahidas, carrancudo, como absoluto senhor:

—Maria não tornará a saír do quarto sem minha ordem!