Affligia-a o remorso. Porque não lhe falara assim quando elle, tão pallido, se arriscára a desabafar? Não sentaria praça, não passaria pelo desgosto de o quererem espancar, e ella não estaria agora ameaçada pelo pae e pela mãe. Sempre o estimára, é certo, mas deixara-a fria esse inesperado desabafo, tanto estava longe de pensar n'elle para marido, quando desdenhava morgados, e julgava tudo merecer.

Elevara-o a deliberação, a coragem, o firme bem querer manifestado no rompimento com a situação de inferior.

Agora sim! Agora comprehendia-o e queria-lhe bem.

No enlevo d'essa commoção, não pensou mais nas ameaças, e apresentou-se á hora do jantar, como se nada tivesse havido.

Quando D. Perpetua lhe foi participar a desobediencia da filha, ficou muito offendido o morgado, mas não se ergueu do barril, não desamparou a destillação, nem sequer deu por entendido o recado.

Reconhecendo a mulher, em intima alegria, quanto o pungia essa noticia, voltou-lhe costas e foi-se.

Quando ao jantar, Maria lhe tomou a benção, estremeceu Martinho Vasques. Creára-a mimosa, votára-lhe certa affeição, embora o seu genio sêcco não o deixasse transparecer.

Ante o seu ar alegre, de desafio, não se atreveu a censural-a, e durante o jantar não se trocou palavra a respeito da vespera.

Saíram as mulheres após as graças a Deus, e ficcou o morgado, meditando e bebendo, até á chegada de fr. Angelico.

Não libaram n'esse dia.