—Avie-se, que eu tenho mais que fazer.
—Pois vá-se embora, que não lhe pego. Ah! Fica de sentinella a mim! Quem tal havia de dizer! Fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria a governar esta casa! Olhe que eu nunca lhe gosei da carantonha, e agora comprehendo que vocemecê, e os outros da sucia, como os mosquitos de roda do vinho bom, andam á espreita das casas ricas, para apanharem freiras com bons dotes, e quintas onde se refocillem. Mas esta não apanham, juro-lh'o eu, porque a minha menina não é para graças. Não vae com cantigas. Aquella ha de fazer sempre o que muito bem quizer, que a isso a costumaram desde pequena. Era o nosso «Sant'antoninho, onde te porei»!
Limpou uma lagrima ao canhão vermelho da jaleca, e virou-se contra o frade, que já não estava nada satisfeito:
—Ha de se lhe acabar o governo aqui dentro, como já se lhe acabou lá fóra!
Deu alguns passos para a porta, mas ainda se voltou para traz:
—Vou para o castello. Hão de precisar lá de soldados velhos para ensinar a recruta á galuchada.
Passou o postigo que o frade lhe fechou nas costas, de pancada, indo depois vigial-o para o alpendre.
Voltara-se mestre Jacintho ao estoiro, e não poude represar as lagrimas vendo-se expulso d'essa casa, que considerava como a sua.
Deu alguns passos, vergado ao peso do saco, penosamente apoiado ao bordão, mas tirara-lhe as pernas a sensibilidade e veiu sentar-se na banqueta, a refazer-se.
Descendo para as bandas de S. Jorge, illuminava o sol as vidraças dos quarteis da fortaleza.