A propria honra se foi! Um insulto cruel
Fez agitar um dia o lodaçal enorme,
Houve gritos de raiva, amarguras de fel
Mas já tudo passou! E o povo dorme… dorme!

O derradeiro arranco! Ao pobre muribundo
Não resta d'esperança um lampejo fugaz,
Hoje existe sómente a mostrar-nos ao mundo
Um sepulcro marmoreo, um funebre aqui jaz.

Synthetizou outr'ora um esperançoso ideal
Em honra do cantor das nossas tradicções,
Hoje existe de pé por sobre o tremedal
Um symbolo de morte:
O lucto de Camões!

Lisboa, 11-1-91

+A BORDO+

Vamos no alto mar, a noite lentamente
Encobre pouco a pouco a abobada celeste;
Ha pallidos clarões das bandas do occidente
E sopra uma rajada aguda de Nordeste.

Corre a todo o vapor, com impeto potente
O navio rasgando a superficie agreste
Do gigantesco oceano. As ondas febrilmente
Tem o tom verde-negro e triste do cypreste.

Só vemos ceo e mar, o horizonte enorme,
Cercados pelo gigante immenso que não dorme
No monotono circo é plena a solidão.

N'essa tremenda lucta o pensamento humano
Mostra pujantemente, ao dominar o oceano,
Um cerebro o que vale! o que é um coração!

A bordo do Funchal, 1891