Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona attribuivel á situação de Talabriga[[22]] não está erma de castros,{21} antes nella se dão varias circunstancias que não posso deixar de aproveitar para a minha these conjectural.

Branca é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e que é cortada pela estrada real; ha nella um logar de Cristellos, que só pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (loc. cit.) e d-O Arch. Port. (II, 313, «Mem. Parochiaes») que ha um local sito na serra de S. Julião, atravessado pela estrada real e que Brito mais claramente chama castello de S. Gião (castello por castro), no qual, segundo aquelles tres testimunhos, ha ruinas de muralhas e fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem ruinas de uma atalaia e que o parocho das Memorias tambem capitula de vestigios romanos, acrescentando muito singularmente (note-se bem o que isto póde significar) que ahi esteve... Langobria (sic). Foi aqui que Brito diz ter encontrado a tal pedra de letras mal distinctas de que não affiança a leitura, mas que lhe pareceu padrão de estrada.

E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito.

Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é precisamente a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre a carta a primeira secção da via romana de Coimbra a Gaia[[23]].{22}

Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem perguntados pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os montes e as vozes da região, mas nem por isso o meu espirito deixa de ficar demonstrado, até o possivel, que as cinzas de Talabriga nunca podem estar guardadas em Aveiro. As coincidencias que acabo de notar, não são bases frivolas.

Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca, poderá concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura.

D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou menos proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou referencias de documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares e tradições poderão concorrer para precisar a trajectoria d'aquella antiga via de communicação; o caso em si, porém, é indifferente para a questão primacial que motivou este estudo. O que é certo, é que a estrada romana sulcava a faixa comprehendida entre a estrada real e a linha ferrea até o vertice de Gaia.

Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas anteriores. Albergaria denota bem que o sitio era de assiduo e antigo transito (Viterbo, Elucidario de palavras, etc. s. v. Albergaria) ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o norte do país. As mansiones tinham o caracter de pousadas.

Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa se fundou, como implemento de uma necessidade que já existia.

As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia das viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e paludosa. São decerto obras da idade media, dos mouros, diz Pinho Leal (s. v. Marnel e Vouga). Mas os indicios pre-romanos e romanos soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de edifícios e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam, segundo descrevem Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. XVIII nos extractos publicados pelo Archeologo Português.