[IX]

O sentimento de Gaspar Barreiros (Chorographia de alguns logares, MDLXI, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a actual Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios antigos. Varios autores o seguem.

As razões d'este illustre escritor do sec. XVI merecem alguma discussão.{23}

Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento, traz o passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma differença que elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando porém que alguns exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A lição citada é pois esta: A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres, Pesuri, flummen Vacca, oppidum Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et flumen Minium, etc. Esta variante demonstra a existencia de uma cidade Vouga, que G. Barreiros colloca na Ponte de Vouga (p. 50 v). Algumas cartas antigas reflectem esta indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a contagem de Conimbriga para Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é exacto, espaço que elle computa equivalente a 12,5 leguas e enumera:

De Condeixa a Coimbra2,5 leguas
De Coimbra á Mealhada3,5 »
Da Mealhada a Avellãs2 »
De Avellãs a Agueda2 »
De Agueda á Ponte de Vouga1,5[[24]] »
De Ponte de Vouga a Cacia1 »
12,5

«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas, se acham vestigios antigos, s. os fundamẽtos de h#7869;a torre que na memoria dos homẽs inda staua quasi inteira, onde era outro tipo segundo ficou fama de h#7869;s em outros chegauam nauios da foz do mar, porque inda ali se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta torre em h#7869;a lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que dentro em seu ambito cõprehende h#7869;a milha pouco mais ou menos» (p. 50).

A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação, nós temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec. II a. C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia, segundo narra Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam que foram escolhidos pelas populações proto-historicas;{24} teria que justificar o proprio designativo de caracter celtico briga—altura fortificada.

Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos, sobresaía uma torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de argamassa», quasi estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não podem ser anteriores aos romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca que ás posteriores. Para a contemporaneidade, teriamos que admittir e demonstrar uma deslocação do primitivo assento de oppidum, como vimos; se esses vestigios se affectam ás epocas successoras dos romanos, o facto sae para fóra do problema e d'elle me não posso occupar.

O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é aquelle que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do itinerario a contar de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte. Evitei assim o erro de cair em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia, onde muito bem podia ir passar com o roteiro romano nas mãos.

Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos na tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela Mealhada, Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado porém a esta altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a primeira estação de Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga. Kilometricamente, creio não haver que lhe objectar. A distancia da ponte de Vouga a Cacia é proximamente igual á que entre o mesmo ponto se nota e a linha-zona TT, que eu determinei. Portanto não falseava o illustre chorographo quinhentista a tabella do Itinerario, isto é, as 50 milhas desde Condeixa (Conimbriga).