D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide Theatrum orbis terrarum, já citado a pag. 132).

Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (Monarchia Lusitana, II. V. p. 130) diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e pescarias, era cidade florescente[[35]].

O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto consentia a arqueação das caravelas.{34}

D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. Os portos maritimos de Portugal, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3).

O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga cidade de Vacua[[36]], onde depois foi a villa de Vouga e agora mero cabeço de Vouga (Arch. Port., VII, 191), que aliás tende a desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho Leal, Port, Ant. e Mod., s. v. Vouga).

Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (Annales de l'Espagne et du Portugal, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8 ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres.

Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (Port. Mon. Hist., «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (Arch. Port., IV, 144).

O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do sec. XVIII, transmittida pelas Memorias Parochiaes, segundo as quaes o braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo para caravelas e agora é vadeavel (Arch. Port., IV, 329).

Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente, tem-se açoreado (Arch. Port., V, 297).

Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso{35} do que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das minas.