E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos neolithicos, poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa epoca em deante, se tomarmos por base da hypothese o caracter latino da technologia[[31]] e o que sabemos por aquelle geographo da importancia das salgas (Geographie de Strabon, por Am. Tardieu, 1886; III-IV-2). Mas então já a via militar ab Aeminio ad Calem lá estaria antes de ser necessaria, se necessaria se pudesse considerar por motivo do commercio externo, num porto afastado da linha natural de communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como vimos.
Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo arabico Edrisi (Géographie d'Edrisi, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris 1840 II, 227).{32}
O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A. Jaubert representa na graphia francêsa por Boudhou (ou==u); e assim conforme o texto arabico vemos que o nahr-Budhu é um rio consideravel onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a 70 milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população occupada no trafego maritimo.
A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo relacionaveis com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á questão posta.
Há porém, uma cousa que não posso omittir.
É o documento n.º LXXVI dos Port. Mon. Hist., «Dipl. et Chartae», onde se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é alauario, o que só por si desmorona as hypotheses etymologicas a que varios chorographos se tem apegado, mas revela pela primeira vez a existencia de uma povoação onde hoje é Aveiro (assim tambem Talabario e Táveiro. Doc. CXXVIII).
O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e inflexivel dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade[[32]]. O factor é antigo, tão antigo quanto o póde ser, por maneira que aquella região nunca teve, fóra das epocas geologicas, outra face topographica muito diversa da dos nossos dias[[33]]. É presumivel que elevadas florestas forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla limitada{33} pelo mar a Oeste e pelas montanhas a E., na região e na epoca de que me occupo[[34]] como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto Sampaio (Portugalia, II, 215, art. cit.); mas isso não importa acreditar a possibilidade da via romana por terrenos de tal especie.
Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao proceder-se aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades de Vagos, se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio, que infelizmente não foi estudado. Na Esgueira, achara-se outro.
Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é acrescentar que a ponte foi logo capitulada de romana, nada menos.
Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas de Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e ancoras, o que radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi em tempos antigos. Esta apreciação já é do sec. XVI.