É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que interessam ao presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam{30} a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (Os portos maritimos de Portugal, pelo Sr. Adolfo Loureiro, II, 3). Não sei que fundamentos póde ter esta asserção, que em todo o caso é relativa á tonelagem dos antigos navios.

Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem cousa d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações, como aliás se tem escrito.

O mais explicito é Estrabão (Geographia, liv. III, III), que vertido a latim, diz: Deinceps post Tagum nobilissima flumina sunt Muliadas, parvas habens navigationes. Itidem Vacua fluvius, post quos Durius longo fluens cursu, etc. O geographo grego iguala o Mondego (Muliadas) rio de navegação diminuta, ao Vouga, da mesma fórma (itidem) estuario de diminuta navegação. E tanto mais é esta a natural hermeneutica, que o contraste é frisante com a importancia do Douro, longo fluens cursu. Estrabão escreveu no sec. I a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no tempo dos romanos entravam o Vouga embarcações de longo curso e a sua foz era um porto de grande commercio e muita prosperidade?

Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não havia nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de vulto que determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio da natural directriz ab Aeminio Calem. E para um porto de tamanho trafego, era pouco um simples vicus.

Temos pois a affirmação estraboniana[[28]]. E antes?

Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações. Apesar da falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se o facto até para a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a mais pronta saida do mineiro para o commercio externo.

Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico determinasse a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada interior. A essa gente faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára tão indispensavel, como o pão para a boca: era a segurança pessoal, era o ninho de aguia. Com as planuras não se queriam elles. A não ser que deroguemos os conhecimentos adquiridos no que até agora se tem encontrado.{31}

Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á noticia de Estrabão?

Um primorosissimo escritor[[29]], filho de Aveiro, evita, com exemplar abnegação patriotica, o problema archeologico da origem preromana da sua terra natal, mas propende á presumpção de que algum povoado assentaria antigamente na foz do Vouga os seus lares. E enfeixa o illustre homem de letras duas razoes: 1.ª, a geographica; 2.ª, a da exploração do sal. Aquella parece-me menos conciliavel com a ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E esta? Para o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. Os marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam[[30]]?

Que, posteriormente a Estrabão, as parvae navigationes crescessem em numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a fervilhar nas planicies.