Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que{28} não podia ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul de Portugal. Creio não se poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo era construida por arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles ainda encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror das suas algaras.

Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma estrada mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e Agueda? Confesso que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso d'este caminho tradicional se perpetuassem através de tantos seculos e tão profundas transformações sociaes.

Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha ainda o logar de Mourisca, á margem da estrada, e que o nome lhe veio d'esta. Traduzindo mourisco em romano, póde ser acertada a supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. Estrada.

Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da estrada real; chama-se elle Fundo da rua. Tal rua não é outra senão a via romana. Esta explicação affere pela que dá o Corpus (II. p. 363) com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da Rua, onde passava uma estrada romana (oppido quod a via romana nomen duxit). A 3:500 para O. da Feira ha um sitio chamado Rua Nova. Aqui é que só a inspecção dos logares poderia indicar-me o significado d'este tópico.

Num escritor estrangeiro do sec. XVIII, lê-se uma descrição litteraria do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se descortine para a banda do mar toda aquella immensidade de terras feracissimas que aquelle autor olhava como planicie encantadora (Annales de l'Espagne et du Portugal, Alvares de Colmenar, Amsterdam 1741, p. 253).

Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.{29}

Nos Port. Mon. Hist. não se encontram referencias mais claras do que esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa alguma que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da epoca romana, considerada como tal[[27]].

[XII]

Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a historia d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.

Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e fechava os caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um problema technico e administrativo extremamente complicado para os governos portugueses, não só pelas condições commerciaes de Aveiro, mas pelo estado sanitario de toda esta região. O coração d'este problema é a barra do Vouga.