A segunda estação foi interpretada por Vatira (ed. 1610) e Uetaria (ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim desfigurada.
Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia, ella desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal, chega-se com um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o tradicional caminho que entesta na foz do Douro.
Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava Bona ou Buna-car, expressão que não sei reconhecer, mas parece-me que deve ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz Edrisi que de Bona-car ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina anterior (p. 227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. Portanto creio que Buna-car era aproximadamente em Gaia, onde depois o rio se atravessava em barcos[[25]].
Descrevendo o mesmo caminho por mar, isto é, a viagem de Coimbra a Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de nahr-Budhu (rio Vadeo, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao Vouga, rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e pequenas (II, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle tempo a foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa. Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do caminho medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com segurança.
Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado então devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas pontes medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem{27} estes dois ponto; duvidosos, localização muito verosimil de Aba ou Abah em Agueda e incerta de Vatira ou Ueturia, o testemunho do geographo arabe apenas serve seguramente para localizar as testas d'este caminho, estabelecer com grande plausibilidade a tradição do caminho historico pela orla das montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz do Vouga.
[XI]
Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana ab Aeminio ad Calem, o testemunho de Viterbo (Elucidario, s. v. Estrada mourisca) devia ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos documentos de Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da parte de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148, Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S. Felix subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo.
Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido aberta pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar entre Lancobriga e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se entupira e alteara por causa das areias e os rios estagnados não só esterilizaram os campos, mas fecharam a passagem dos caminhos. E mais depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto a Agueda por Azemeis, Albergaria, Vouga, etc.
Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão concordante com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada mourisca descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por Albergaria e por Vouga.
Que Viterbo lhe chamasse mourisca não é de espantar; era a voz popular que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc[[26]].