2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta M.IIII.

Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado litigioso no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre Mealhada e Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, Oppida restituta, p. 82; Hübner, Notas archeologicas sobre Portugal, p. 67, trad. cit.: Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto de Coimbra, p. 6; A. Filipe Simões, Escritos diversos, 1883).

3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na Monarchia Lusitana, II, V, p. 3. Este vicio de origem obriga-me a pôr ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; Hübner fulmina-o com a sua desconfiança (Corpus, II, 55 a *) dizendo que Brito queria demonstrar com elle a existencia de Vacua. Não lhe darei porém eu maior valor que o proprio monge, que, como por prevenção, confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy quebradas». Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha meio de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco vale por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao que parece, castro rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja importancia só modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos de que com effeito alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com o dizer que a lapide era padrão de estrada, contrariava sem o advertir a propria crença de que a via romana seguia pela beiramar e Talabriga era em Aveiro. (Mon. Lusit., id., p. 130).

Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto, mas rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique, provisoriamente, apenas um facto—o achado de um padrão de via romana num castro das margens do Caima.

A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario tinha ainda por si, alem do mappa de Abr.ão Ortelius (Theatrum orbis terrarum, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (España Sagrada, tomo XIV, p. 73), que lêra Plinio e uma edição antiga do Itinerario romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que dominou até hoje, se com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se Adolfo Loureiro. Os portos maritimos de Portugal, II, p. 3; Marques Gomes, Districto de Aveiro, onde restringe[[5]] a Cacia o ubi de Talabriga;{11} Borges de Figueiredo, Oppida restituta, 1885; Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, s. v. Aveiro; Gaspar Barreiros, Chorographia de alguns lugares; D. Nunes de Leão, Descripção do reino de Portugal; Francisco do Nascimento Silveira, Mappa breve da Lusitania antiga, etc.)[[6]].

Regressemos porém ao Itinerario, e vejamos se será possivel concluir algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo possa contraprovar. É o meu sonho.

Que a medição total do Itinerario relativa á via ab Aeminio Calem está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a somma das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros, (unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada) era de 105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na Carta do Estado Maior d'esta região pela directriz da estrada real é de 105:100 metros[[7]]. Não podendo ser mais breve a distancia d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados rectificados ao lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a rectificação exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, o que mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos, conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica, não poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito distanciado d'ella.

Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si, que a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem{12} muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no seu trajecto de Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma extensão, encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o que nada util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já salientei, e que me permittiram estudar sobre uma carta este problema, a coincidencia effectiva das duas vias de communicação deve em grande parte quasi corresponder á coincidencia theorica, agora expendida.

Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito afastado e divergente do trajecto theorico[[8]].

[IV]