Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso partir do principio já demonstrado, embora para o total da distancia, que as medições do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas milhas marcadas para cada uma das secções da via militar alteraria a somma, desde que, por um acaso unico, não fosse compensada por outra inexactidão.

Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de Eminio a Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga a Cale. Se uma sequer das distancias correspondentes do Itinerario contivesse erro, a somma total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a distancia de 105 kilometros corresponde a uma realidade. Comecemos pelo extremo norte da via. Isto conduz mais claramente ao meu fim; e descobre mais prontamente o erro em que até agora me parece que tem laborado os escritores. Tomemos o mappa[[9]].

Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se{13} a escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no mappa) que no terreno representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga, dentro da qual e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto ininterrupto da via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o archeologo deverá procurar os vestigios de Lancobriga.

Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se consideravelmente da directriz da estrada real.

Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam 26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva LL marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o terreno não é propriamente uma carta celeste[[10]] em que os pontos podem ser rigorosamente indicados, a nova curva deixada pelo compasso é representativa de uma segunda faixa de tolerancia, susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada, quanto á sua extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a Aeminium, trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas.

E assim temos o arco TT.

Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao appellido do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta conclusão emerge logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do Itinerario no total e muito provavel nas secções; a coincidencia das extensões da via antiga e da estrada moderna.

Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com um raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra curva, a terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a zona util, o segmento dos arcos, correspondente á area provavel da situação de Talabriga. Porque o que não póde haver, é um hiato, uma interrupção de trajecto de Cale a Aeminium[[11]].

Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel a actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que isto; vem levantar um equivoco de Plinio, que parece{14} suppôr aquelle oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga aos 19 kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20 kilometros, onde devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a de Plinio[[12]]. O hiato resultante fica, parece-me, fechado e annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a de Albergaria, ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se concilia em todos os pontos com o Itinerario.

[V]