Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em face das condições topographicas e historicas da região de Entre-Vouga-e-Douro.
A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter seguido a via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado que ella já trazia desde Lisboa.
Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada na epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro, mais economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam existir já então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio, do Nilo.
Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis[[13]] ou veigas retalhadas, como hoje, por um dedalo de canaes e esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De qualquer d'estas fórmas, uma via romana não iria atravessar uma região em que a falta de pedra é quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de architectura civil ou de obras{15} de arte uma consequencia inevitavel. Era preciso combater por um lado a pouca firmeza do terreno, por outro contar com o custo da empresa[[14]], ou os impecilhos da viagem.
Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção, ou melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa, obrigando-a a passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os mesmos que desviaram os engenheiros romanos de lançarem a via militar através de campinas encharcadas, só para irem buscar a embocadura do Vouga, antes de attingir Calem.
Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da administração do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos com a traçada através do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada romana pela orla fóra do terreno firme e accidentado e da região povoada de castros e abundosa de minerios, região que ainda hoje podemos ver acompanha-la pelo trajecto da estrada real. As vias de communicação teem muitas vezes uma directriz fatal e tradicional através de longos tempos e povoadores successivos[[15]].
Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação.
A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer, decalcada pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes antigas de que os chorographos fallam. Esta orientou-se pela comprehensão das conveniencias, e afastou-se da embocadura do Vouga, seguindo a directriz mais economica e mais util; não direi ainda a directriz romana porque é o que pretendo demonstrar, mas a que era directriz tradicional, como vou explicar.{16}
[VI]
Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento da via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as brigae, e as cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias, consoante as denominações que lhes applicaram[[16]]; era por essa corda alem, que o terreno baixo e plano da zona maritima começava de elevar-se. A estrada romana desenrolava-se por entre esses centros da habitação, abandonando ao lado um país chato, pouco firme e talvez quasi invio.