Outros indicios, mais vagos e incertos, parecem affirmar-nos que entre os Pelasgos havia castas, analogas ás orientaes, havia uma poderosa e influente classe sacerdotal, e uma aristocracia hereditaria para defesa do paiz...
Dos Pelasgos suppõe-se que foram consanguineos os Thracios Pierios (da Pieria, estreita faixa de terra na costa SE da Macedonia, que se extendia desde a foz do Peneu, até ao Haliacmon). Teem celebridade estes povos na historia primitiva da musica e da poesia grega; no seu paiz nasceu o culto das Musas, e alli foi sepultado Orpheu, o heroe mythico cuja voz e cuja lyra tinham o dom de arrebatar os homens, de amansar a ferocidade animal, e de predispôr á benevolencia, os deuses sombrios do mundo subterraneo. Permittiram-lhe estes que trouxesse dos Infernos sua mulher Eurydice e voltasse a viver com ella na Terra.
Ao lado d'Orpheu colloca-se Lino, inventor da elegia, e o sacerdote cantor Eumolpo, fundador dos mysterios de Eleusis, que legou a direcção d'elles aos Eumolpidas, seus successores.
Persistia entre os Gregos, n'estes e n'outros mysterios, como culto secreto, a religião dos Pelasgos. Celebravam-se as pequenas Eleusinas na primavera; as grandes, que duravam nove dias, no outono. N'ellas se dava culto aos mythos de Deméter e de Perséphone, como forças de concepção, ao de Dionysos, como força de producção. A iniciação era feita pelo hierophante; alêm d'este, havia gran-sacerdotes, simples sacerdotes{14} e sacrificadores, os quaes todos, nos dias de festividade, se vestiam de purpura e coroavam de myrto.
Pertencem, tambem, ao cyclo legendario do primitivo povo pelasgico os mythos de Inacho em Argos, de Egialeu em Sicyonia, de Pelasgo na Arcadia, de Oxiges na Attica, etc.
Perante a critica historica são insustentaveis as lendas do egypcio Cécrops, fundador da cidadella (Cecropia) de Athenas; do phenicio Cadmo, fundador de Thebas, introductor da arte da escripta e da arte de fundir o bronze; do phrygio Pelops que deu o seu nome ao Peloponeso; do estabelecimento de Danao e das Danaides na Argolida, etc. Perante as investigações da moderna sciencia historica tem certo fundamento a opinião que admitte a originalidade e o caracter aborigene da organização grega, bem como a que ingeita o parecer de ter sido introduzida a civilização na Grecia pelos seus colonizadores do Egypto, da Phenicia e da Asia Menor. Mas, apezar d'estas asserções, é incontestavel que cedo existiu uma corrente civilizadora entre a Grecia e o Oriente, exercendo este sobre aquella uma influencia indelevel tanto nas instituições da vida civil como nas do systema religioso.
Isto não obstou a que os Gregos, ou, para melhor dizermos, os Hellenos, dessem livre expansão ao seu genio politico, ás suas tendencias artisticas, ás suas concepções religiosas, confirmando, sobre os Pelasgos conquistados, a superioridade da sua raça e as suas mais vastas aptidões intellectuaes.
2.º Tribus hellenicas.—Nada se sabe emquanto á origem e ao apparecimento historico dos Hellenos. Sabe-se que constituiram tribus militares, e que venceram, afugentaram, ou escravizaram, as tribus industriosas dos Pelasgos. Estes procuraram asylo nos desfiladeiros do Olympo, em alguns pontos da Thessalia, do Epiro, da Macedonia, da Attica, da Arcadia, e defenderam por largo tempo a sua independencia. No tempo de Homero, havia pouco ainda que tinham sido de todo subjugados.
Presume-se, no emtanto, que os Hellenos não constituiam uma raça particular, mas sim que formavam tão sómente a cavallaria ou parte guerreira dos Pelasgos, a qual submetteu por violencia ao seu jugo tanto a classe theocratica como o povo pacifico.
Como quer que fôsse, essas tribus guerreiras subdividiram-se em quatro grupos, ou tribus principaes, que mantiveram em todo o decurso do seu viver historico profundas differenças de usos, de lingua, e de regimen politico.{15}