Essas quatro tribus foram as seguintes: os Dorios e os Acheus no Peloponeso, os Jonios na Attica e nas ilhas, e os Eolios na Beocia e outros pontos.

O nome de Acheus foi, durante os tempos heroicos, o de todas as tribus do povo grego, e por elle são os Gregos designados em Homero. Foi no seculo IX A. C. que esta denominação se restringiu aos habitantes das margens dos rios do norte do Peloponeso, recebendo os outros Hellenos as especificações que dissémos. Crê-se que foram os sacerdotes de Delphos quem, posteriormente, imaginou para as quatro tribus uma genealogia commum.

Essa lenda genealogica foi a seguinte: em tempos remotissimos houve um diluvio em que morreram todos os homens com excepção de Deucalião e de sua mulher Pyrrha. Andaram estes vogando nove dias n'uma arca; e, ao fim d'elles, deram fundo no cume do Pindo, ou, como depois se disse, no do Parnaso. Supplicaram então aos deuses que repovoassem a Terra, e, attendidos na sua prece, receberam ordem para irem arremessando para traz de si os ossos da mãe, isto é, pedras da Terra. Das pedras que Deucalião atirou nasceram homens, e das de Pyrrha nasceram mulheres.

A esta lenda primitiva acrescentou-se em tempos mais recentes a de Hellen, filho de Deucalião. O primogenito de Hellen foi Eolo, tronco dos Eolios; o segundo foi Doros, personificação dos Dorios; o terceiro foi Xutho (o expulso), de quem descendiam Ion e Acheu. A outro filho de Deucalião, Amphictyão, attribuiu-se a instituição da amphictyonia (isto é, uma liga em que se abrangiam as diversas tribus), e a um filho de Pandora, filha de Deucalião, o nome de Gregos que os povos do Occidente deram aos Hellenos.

Os sacerdotes de Delphos, versados nos mythos do Oriente, cuja influencia transluz em toda esta série de lendas, tiveram um fim altamente patriotico quando pretenderam dar ás quatro tribus uma ascendencia commum. Quizeram dispertar o sentimento da communidade nacional, dando-lhe uma expressão comprehensivel.

3.º Guerra de Thebas.—Colloca-se este acontecimento no seculo XIII A. C.; mas todas as datas attribuidas aos factos dos tempos mythicos são absolutamente incertas. Um dos episodios mais remotos das tradições nacionaes gregas é a guerra de Thebas, ou, como ordinariamente se diz, a guerra dos septe chefes deante de Thebas.

Eteocles e Polynice, filhos de Œdipo, da tragica familia de{16} Laio, disputavam o throno paterno. Polynice, expulso por seu irmão, refugiou-se na côrte de Adrasto, rei de Argos, o qual lhe deu uma filha em casamento e o acompanhou até deante de Thebas com um exercito commandado por elles ambos e por mais cinco chefes illustres. Todos os chefes morreram, com excepção de Adrasto. Eteocles o Polynice mataram-se um ao outro em combate singular; e Créon, seu tio, sentou-se no throno que os dois irmãos haviam disputado. Créon mandou matar sua sobrinha Antigona por haver infringido as ordens dadas por elle para que não fôsse concedida sepultura aos dois irmãos; mas Theseu, guarda e vingador das leis moraes, declarou-lhe guerra e matou-o.

Tempos depois os filhos dos septe vingaram sobre os Thebanos a morte de seus paes na guerra dos Epygonos (Posthumos). Laodamas, filho de Eteocles, ou foi morto ou fugiu para a Thessalia; e Thersandro, filho de Polynice, reinou em Thebas devastada.

4:º Expedição dos Argonautas.—Este grande facto parece ter sido ainda anterior á guerra de Thebas. N'elle teem querido alguns criticos vêr um resumo poetico das primeiras impresas maritimas dos Gregos para o Mar Negro. A expedição dos Argonautas foi dirigida por Jasão, de Iolchos, na Thessalia, de parceria com 54 heroes entre os mais illustres d'aquelle tempo: Heracles, Theseu, Castor e Pollux (lacedemosios), Peleu, pae de Achilles (thessaliano), o cantor thracio Orpheu, Pirithoo, Meléagro, Esculapio, e muitos outros. Partiram para o remoto Oriente, no navio Argos, com o fim de conquistarem o vélo de oiro, especie de palladio da Colchida, que um principe thessaliano, Phryxo, tinha collocado n'uma floresta consagrada a Ares (Marte), e que, segundo a fabula, era guardado por um dragão. O mastro da nau Argos era feito do tronco de um carvalho cortado na floresta de Dodona, no Epiro, e pronunciava oraculos.

Hercules abandona a expedição, depois de ter libertado, nas costas da Mysia, Hesione, a quem um monstro marinho ia devorar.