Jasão inspira uma paixão exaltada a Medéa, filha do rei da Colchida e conhecedora de todos os segredos da magia; subjuga dois toiros com pés e armas de bronze, e que vomitavam chammas, junge-os a uma charrua de diamante e lavra com elles qualro geiras de terra consagradas a Marte; semeia os dentes de um dragão e d'estes nascem homens armados; vence e mata o monstro que guardava o velocino,{17} e brilhantemente logra conquistar por esta fórma o suspirado thesouro; depois, volta com Medéa no seu navio, e a feiticeira Circe protege-o.
As Nereides levantam nos braços a nau, para ella passar sem perigo entre Scylla e Charybdes. As Sereias intentam perder os nautas com os seus cantos melodiosos, mas Orpheu desfaz-lhes o incanto com os accordes da sua lyra. Visitam, em Africa, o jardim das Hespérides onde Hercules tinha, pouco antes, colhido os pomos de oiro, e chegam finalmente á Grecia.
Durante a viagem, e aqui, Medéa practica os maiores horrores. Corta em bocados o cadaver de seu irmão e semeia-lhe os ossos ao longo do caminho para demorar com esse espectaculo horroroso seu pae que a vinha perseguindo. Rejuvenesce, em Iolchos, o velho Eson; e induz as filhas de Pélias a trucidarem seu pae, cozendo-lhe os membros n'uma caldeira com hervas magicas. Abandonada por Jasão, degola seus proprios filhos; dá á sua rival, Creusa, filha do rei de Corintho, uma tunica envenenada; e, erguendo-se aos ares n'um carro puxado por dragões com azas, refugia-se na Attica, onde desposou Egeu.
Como se vê, a poesia grega inriqueceu com todas as galas da ficção mais ingenhosa, a lenda heroica d'esta aventura maritima.
5.º Guerra de Troia.—De todos os grandes acontecimentos pertencentes ao periodo heroico da Grecia, este foi o mais notavel e é o mais conhecido. Incumbiram-se de perpetuál-o, desde os mais remotos tempos, a lenda, a arte, a poesia.
A guerra de Troia é um facto evidentemente historico, imbora as particularidades de que o revestem sejam meras ficções poeticas. A quéda da grande cidade asiatica serviu muito tempo de era á chronologia grega. Muitos historiadores consideram este episodio bellico como o termo da lucta entre a nacionalidade hellenica e a nacionalidade pelasgica; Herodoto via n'elle simplesmente um grande imprehendimento da Grecia contra a Asia; a poesia explicou-o por um odio hereditario entre as familias reaes de Troia e do Peloponeso, aggravado por uma affronta mortal feita por um principe troiano á honra do lar domestico de um monarcha grego.
Priamo reinava em Ilion ou Troia, na costa noroeste da Asia-Menor. Seu filho Páris (ou Alexandre) raptou Helena, mulher do rei lacedemonio Menelau, que lhe havia dado magnifica hospitalidade na sua casa. O marido insultado pediu{18} aos outros reis da Grecia que o auxiliassem a vingar-se, e em breve se organizou uma expedição commandada por Agamemnon, rei de Mycenas e irmão de Menelau.
A espontaneidade com que tantos principes e tantos povos diversos se unem para a mesma impresa commum é significativa. Não ha, como nunca houve, entre aquellas pequenas agglomerações de homens ciosos e independentes, entre tantos e tão varios Estados, a necessaria unidade politica; não ha uma federação geral; mas vê-se que existem em germen todos os elementos de uma nacionalidade. Cincoenta e septe Estados e outros tantos chefes tomaram parte na impresa. Alêm do Atrida Agamemnon, rei de Mycenas, de Corintho e de Sicyonia, fizeram parte da expedição: Menelau, rei de Esparta; Achilles e o seu amigo Patroclo da Thessalia; Ulysses, rei de Ithaca; Diomedes, rei de Argos; Ajax, rei da Lócrida e Ajax, rei de Salamina; Nestor, rei de Pylos; Idomeneu, rei de Creta; Philocteto, que possuia as flechas de Hercules; e muitos outros. Partiram do porto de Aulida 1:186 navios, transportando para a Asia mais de 100:000 guerreiros. Uma tradição posterior affirma que, em Aulida, Agamemnon sacrificou a Artemis sua filha Iphigenia.
Prolongou-se por dez annos a resistencia da cidade, a qual finalmente foi tomada por artificio, incendiada, e destruida. Heitor, filho de Priamo, morrêra traspassado pela lança de Achilles; Priamo foi degolado; Hécuba e suas filhas, levadas para o captiveiro; uma d'ellas, Polyxena, immolada sobre o tumulo de Achilles; Andromaca, viuva de Heitor, dada a Pyrrho, filho de Achilles, e Cassandra, outra filha de Priamo, a Agamemnon. Dos Gregos morreram Patroclo, Achilles, Ajax de Salamina, e outros. Os vencedores expiaram terrivelmente a sua victoria. Ulysses vagueou dez annos sobre as ondas antes de tornar a vêr a sua Ithaca; Menelau, tambem, durante oito annos andou perdido e acossado pelas tempestades; Agamemnon, depois de um regresso attribulado, foi morto por Egistho, a instigações da sua infiel esposa Clytemnestra. Ajax, da Lócrida, naufragou de incontro a um rochedo onde pereceu. Teucer, repellido pela maldição paterna, por não ter vingado seu irmão Ajax, foi edificar em Chypre uma nova Salamina. Diomedes fugiu para a Italia afim de se subtrahir, no seu reino, a uma sorte analoga á de Agamemnon. Philocteto, Idomeneu, e Epéos, tambem foram ter ás costas de Italia, onde egualmente incontraram asylo os troianos Antenor e Enéas, filho de Anchises, considerado, depois, pelos Romanos, como tronco da sua raça.{19}
As façanhas e as desgraças d'estes heroes foram cantadas pelos poetas nacionaes; mas d'esses cantos, que formavam dois cyclos épicos, só nos restam a Iliada e a Odysséa, attribuidas a Homero, poeta que viveu provavelmente no seculo X antes da nossa era.