[CAPITULO II ]

TEMPOS HISTORICOS

1.º As migrações dos Dorios. Jonios e Dorios, raças rivaes. Athenas e Esparta.—Os tempos immediatos á guerra de Troia foram de violentas commoções politicas e de longa anarchia. Desappareceram quasi todas as antigas familias reaes, victimas ou de tragedias domesticas ou de luctas cruentas com outras familias. Houve alêm d'isto um grande embate de tribus, ao fim do qual as mais fracas succumbiram, estabelecendo-se as mais poderosas em regiões novas.

A mais importante d'estas migrações foi a dos Dorios para o Peloponeso. Viviam os Dorios a sua vida pastoril e agricola junto ao monte Œta, onde tinham, ao cabo de muitas peregrinações, fundado uma republica livre, cujo centro moral era o culto de Apollo, no sanctuario de Delphos, quando os Thessalianos e os Beocios os expulsaram d'ahi para o sul. Conduzidos pelos Heraclidas (suppostos descendentes de Heracles) sustentaram longos combates para fazerem valer as pretenções hereditarias de seus chefes á soberania da Argolida e da Laconia, onde reinavam os descendentes de Pelops, e conquistaram porfim a peninsula do Peloponeso. A pouco e pouco assenhorearam-se da Argolida, da Laconia, da Messenia, de Sicyonia, de Corintho e da Megarida; intraram na Attica; e ameaçavam já Athenas, quando esta foi salva pelo heroico sacrificio de Codro, seu rei.

Os Acheus, até então o mais poderoso dos quatro ramos da raça hellenica, fugindo deante d'esta invasão, expulsaram por sua vez os Jonios do littoral septentrional e occuparam o paiz, que recebeu d'elles o nome de Achaia. Os Jonios atravessaram o isthmo de Corintho e estabeleceram-se na Attica, onde já tinham sido precedidos pelos Eolios de Messenia e outros fugitivos do Peloponeso. Irradiando ainda d'ahi para as costas occidentaes da Asia-Menor e para as ilhas de Lesbos, de{20} Chios, de Samos, etc., fundaram as colonias jonicas tão celebres pelo alto grau de cultura, de civilização, e de actividade commercial e industrial a que chegaram.

Os Dorios e os Jonios são as duas grandes familias que d'aqui em deante (seculo X A. C.) occupam o plano da Historia; são os dois povos rivaes que vão desinrolar parallelamente com o seu antagonismo duas civilizações, nas quaes, sob os mais diversos aspectos, se manifestam todas as fórmas do genio grego.

«A raça dorica, diz um historiador moderno, menos mesclada, tinha um caracter de gravidade, de energia, de rudeza, de orgulho, que se reproduzia no seu dialecto, nos seus costumes, no seu culto e nas suas instituições politicas. Exclusivamente militar, constituiu quasi por toda a parte poderosas aristocracias que reinavam sobre bandos de escravos ou de servos (hilotas).

«A raça jonica era movel, aventureira, impressionavel, enthusiasta; e amava apaixonadamente os prazeres, a liberdade, a gloria e as artes. Inclinada para o commercio e para a navegação, era, como todas as populações maritimas, intensamente dominada pelo espirito democratico.

«São estas as feições geraes que nos cumpre indicar aqui, e que veremos de cada vez mais energicamente accentuadas na physionomia dos Espartanos (Dorios) e dos Athenienses (Jonios), pelos quaes estas raças hão-de chegar ao seu mais completo desinvolvimento, e que, pelo importante papel que desimpenharam, pelo esplendor das suas victorias, e finalmente pela sua rivalidade sangrenta, mereceram representar, durante muito tempo, os destinos da Grecia toda.»

2.º Organização social e politica.—A Grecia nunca poude attingir a majestosa unidade a que chegou Roma; nunca formou um Estado unico. Compoz-se de uma infinidade de Estados, communidades urbanas, especies de cantões, entre os quaes, de tempos a tempos, havia um que, pelas eventualidades da boa sorte na guerra, passava a exercer predominio nos outros (hegemonia). Assim succedeu com Esparta, Athenas, e Thebas.