A tregua foi observada na apparencia durante uns septe annos, mas de facto rompida um anno depois da conclusão do tratado.
Alcibiades.—Os Corinthios, vendo que se concluira a paz entre Esparta e Athenas, sem contar com elles nem com os outros Estados secundarios, indignaram-se contra Esparta, e, ligando-se com Argos e algumas cidades da Arcadia, resolveram{49} tirar a Esparta a hegemonia do Peloponeso. Deu-lhes o seu apoio o atheniense Alcibiades, sobrinho de Pericles e discipulo de Socrates, homem com admiraveis dotes naturaes, riquissimo, formoso, espirituoso, sabio, eloquente, mas tambem ambicioso, desleal, corrompido, sem fé nem convicções, indifferente para tudo,—n'uma palavra, o mais brilhante, mas tambem o mais immoral e o mais perigoso cidadão de uma republica.
Logo que se involveu nos negocios do Peloponeso determinou uma guerra entre os Espartanos e os confederados. D'esta lucta sahiu Esparta victoriosa na batalha de Mantinéa (418). Apresentando-se como adversario de Nicias, chefe da aristocracia e do partido da paz, fez isso menos por suggestão da consciencia do que para explorar em proveito da propria ambição os sentimentos bellicosos das classes mais baixas.
Decidiu, com a sua eloquencia, os Athenienses a imprehenderem uma expedição contra a Sicilia, da qual teve o commando juntamente com Lamacho e Nicias. O pretexto era soccorrer Segesto contra Selinonte e Syracusa; o fim verdadeiro da expedição, ferir as colonas doricas e cosquistar as ricas cidades gregas da Sicilia. A impresa malogrou-se. Na vespera da partida da esquadra (415) appareceram mutilados durante a noite, em toda a cidade, os Hermes ou bustos de Mercurio. Os inimigos de Alcibiades atribuiram-lhe este sacrilegio, bem como o de ter profanado os mysterios de Elensis; e, transformando as suas suspeitas n'uma accusação capital, revocaram-n'o, mal elle tinha chegado á Sicilia, afim de ser julgado no tribunal. Segundo o relatorio apresentado pelo orador Andocides, aquelle sacrilegio fôra uma conspiração secreta contra a constituição democratica, e como suspeitos de cumplicidade n'elle foram presos e condemnados á morte muitos cidadãos respeitaveis. Alcibiades, temendo a mesma sorte, expatriou-se, e, sendo condemnado, retirou-se para Esparta, onde, por vingança, premeditou a ruina da sua patria, e determinou os Espartanos a renovarem a guerra. Por conselhos d'elle, os inimigos de Athenas apossaram-se da forte posição de Decelia, na Attica, e resolveram-se a soccorrer os Gregos da Sicilia, onde Nicias, contrario á guerra, conduzia as operações frouxamente. Gylippo, habil general espartano, foi em soccorro de Syracusa e deu um golpe fatal nos Athenienses, que cercavam a cidade. Lamacho morreu (414) com uma grande parte dos hoplitas; a propria esquadra atheniense foi toda destruida pelos navios mais poderosos dos Syracusanos{50} e dos Corinthios; Nicias e Demosthenes foram decapitados em Syracusa ás mãos do algoz; os que não morreram com as armas na mão, foram condemnados a uma escravidão durissima (413).
Em Athenas, ao saber-se d'estes desastres, quasi todas as familias vestiram lucto; os confederados athenienses desligaram-se da cidade feliz e procuraram o apoio de Lacedemonia; um exercito espartano, intrincheirado em Decelia, fechava as communicações; uma esquadra espartana, commandada por Tissaphernes, governador da Asia-Menor, em nome dos Persas, atacava as forças navaes de Athenas; a Eubéa cahiu no poder das forças do Peloponeso; e, dentro de Athenas, um partido oligarchico, dirigido por Pisandro, procurava derrubar a constituição democratica, de intelligencia com Esparta. Para isso, instituiu um conselho dos quatrocentos que a si mesmo se elegia, limitou a communidade do povo a cinco mil cidadãos, que nunca foram convocados para o exercicio dos seus direitos civis.
A esquadra atheniense, do commando de Thrasybulo, que estava em Samos, pronunciou-se contra esta revolução e manteve a antiga ordem de coisas. Alcibiades, a esse tempo descontente com os Espartanos, retirou-se para a Asia, chamou aos seus interesses Tissaphernes, tomou o commando da esquadra de Samos, ganhou proximo de Cyzico (410) e em mais dois combates gloriosas victorias contra os Lacedemonios, apoderou-se de Byzancio, de Chalcedonia, e de outros pontos da costa, e estabeleceu no Hellesponto um direito de navegação que fez affluir um novo rendimento para Athenas.
Alcibiades, amnistiado e glorificado por um decreto publico, introu em Athenas como triumphador, foi nomeado generalissimo do exercito e da esquadra, e o povo atirou ao mar as tábuas onde as suas faltas estavam inscriptas. Partindo para a Asia, afim de completar a submissão das antigas possessões athenienses e de bater a esquadra inimiga, foi infeliz n'uma impresa contra a ilha d'Andros. Durante uma ausencia sua, um de seus immediatos foi derrotado nas alturas de Epheso (407) pela esquadra de Lacedemonia, commandada por Lysandro. Os Athenienses, tristemente impressionados com estes revezes, retiraram o commando a Alcibiades e nomearam, para o substituir, dez generaes, entre os quaes se contava Conon. Então Alcibiades, reunindo alguns mercenarios extrangeiros, retirou-se para as fortalezas que mandára construir na Thracia, e d'alli começou a fazer guerra por sua propria conta, como um aventureiro.{51}
Os Espartanos, commandados por Callicratidas, atacaram Lesbos e bloquearam os navios athenienses no porto de Mitylene. De Athenas foi uma nova armada em soccorro da primeira. Travou-se um grande combate naval proximo das ilhas Arginusas (406), onde Callicratidas, successor de Lysandro, ficou morto. A victoria decidiu-se afinal pelos Athenienses.
Seis dos generaes vencedores foram condemnados á morte pelo povo, não só por terem deixado de recolher os cadaveres dos seus mortos (o que era um sacrilegio para as idéas religiosas dos Gregos), como tambem por terem deixado perecer sem soccorro as tripulações de 25 triremes desamparadas durante o combate e batidas pela tempestade.
Queda de Athenas.—Depois da derrota e morte de Callicratidas, Esparta restituiu a Lysandro o commando da esquadra. O almirante espartano soube conciliar habilmente o favor de Cyro «o Moço» governador da Asia-Menor, e com o auxilio dos Persas augmentou as forças navaes de Lacedemonia. Percorreu audazmente todo o Mar Egeu, tomou Lampsaco, e surprehendeu a esquadra atheniense ancorada em Ægos-Potamos («Rio das Cabras»); na costa do Hellesponto, não longe de Sestos. Só pudéram escapar oito navios athenienses que Conon salvou em Chypre, e um bom veleiro, o Paralos, que levou a triste noticia a Athenas (405). Assim acabou o predominio maritimo e a grandeza politica d'esta cidade.