A batalha de Ægos-Potamos foi uma horrorosa carnificina. Os marinheiros e soldados athenienses estavam na maior parte desimbarcados, em jogos e distracções, quando foram surprehendidos. Os navios eram capturados e destruidos quasi sem resistencia. Tres mil Athenienses, com muitos dos seus chefes, foram, em seguida, conduzidos a Lampsaco e sacrificados á vingança dos Espartanos.

Lysandro percorreu em seguida todas as cidades maritimas da obediencia de Athenas, nenhuma das quaes ousou resistir-lhe, destruindo n'ellas os governos democraticos e substituindo-os por oligarchias. Depois atacou Athenas pelo lado do mar, emquanto pelo lado de terra a cercavam os reis espartanos Agis e Pausanias. A grandiosa cidade, digna de melhor sorte, dilacerada internamente pelo furor dos partidos, prolongou quanto poude a sua defesa heroica; mas, porfim, nos apertos da fome, teve de render-se sem condição (404).

Os vencedores impuzéram-lhe:—a demolição dos seus muros e das fortificações do Pireo; a intrega de todos os navios, exceptuando{52} doze galeras, limite maximo a que ficava reduzida a sua marinha; a evacuação de todas as cidades conquistadas; o regresso dos exilados amigos de Esparta; o pagamento de um tributo annual; a abolição da constituição democratica, e a sua substituição pela oligarchia dos trinta tyrannos.

Para a humilhação ser mais completa, as galeras athenienses foram queimadas, e as muralhas bem como as fortificações foram arrasadas ao som de flautas, no meio de chascos grosseiros, e em presença de todos os alliados de Esparta coroados de flores.

[CAPITULO IX]

TYRANNIA DOS TRINTA EM ATHENAS. RESTABELECIMENTO DA DEMOCRACIA

A administração do governo atheniense foi confiada por Lysandro a 30 membros da nobreza, alliados de Esparta, os quaes receberam a missão de organizar o Estado no sentido aristocratico por meio de leis novas. Estes oligarchas, a cuja frente estava Critias, ficaram conhecidos pelo nome de trinta tyrannos; e o seu governo foi um verdadeiro periodo de terror; tantas foram as crueldades e prepotencias por elles practicadas, não só contra os democratas, mas até mesmo contra os aristocratas mais moderados. Só tres mil cidadãos gozavam do direito de burguezia, e os trinta chegaram a decretar que só os tres mil poderiam habitar em Athenas, sendo banidos os outros cidadãos. As diversas cidades regurgitavam de proscriptos athenienses.

Thrasybulo, chefe dos democratas, e um dos heroes da grande guerra, imprehendeu libertar a cidade. Sahiu de Thebas com um punhado de proscriptos, e intrando na Attica, onde se apossou de uma pequena fortaleza, repeliu dois ataques dos Trinta e dos Lacedemonios, surprehendeu de noite o Pireu e conseguiu chamar os oligarchas ao combate. Critias morreu combatendo; os outros tyrannos retiraram-se para Eleusis, com permissão de Thrasybulo, que restabeleceu a constituição democratica e promulgou uma amnistia, restituindo d'este{53} modo a tranquillidade ao Estado. Athenas offertou ao seu libertador a corôa de oliveira.

Socrates.—N'estes desgraçados tempos viveu o grande philosopho Socrates, um dos maiores nomes da historia da humanidade. Nascido em 469, pagou á patria o seu tributo de sangue combatendo em Potidea, em Amphipolis e em Delion. Na primeira d'estas batalhas salvou a vida a Alcibiades, na ultima ao moço Xenophonte. Não é aqui logar para expormos as suas idéas philosophicas, na manifestação das quaes empregava um methodo interrogatorio, que ficou celebre com a designação de ironia socratica.

Em 399, a democracia atheniense, usando de uma intolerancia que para sempre a maculou, instaurou processo a Socrates pelas suas opiniões religiosas e pela sua propaganda politica; e este grande homem foi condemnado a beber a cicuta, morrendo com admiravel serenidade.