LISBOA
Impresso na Typ. do «Commercio de Portugal» 35, Rua Ivens, 41
1895
*DUAS PALAVRAS*
Realisando corajosamente a boa, a piedosa idea de republicar as chronicas impressas do—Pae da Historia Nacional,—como Herculano apellidou Fernão Lopes, Mello d'Azevedo, o editor d'esta modesta e patriotica bibliotheca podera, hoje, ainda! suprir qualquer explicação prefacial com as palavras do nosso grande historiador moderno, quando ha mais de meio seculo tracejava o perfil do encantador—«escripvam»—do bom Rei Dom Duarte:
—«Tão raros, ou tão pouco lidos andam os antigos escriptores portuguezes que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de nome os conheçam, e frequentes vezes nem de nome.»
Hoje, ainda!…
Fernão Lopes é quasi exclusivamente conhecido de nome, e já agora arejemos toda a nossa idea, mais exactamente toda a nossa observação positiva e directa: nem de nome o conhece muito litterato gloriosamente emproado pelas novas camarilhas do elogio mutuo na fama e na faina da renovação da Historia e da Arte nacional… por estampilha francelha.
Uma das causas da mingua, a bem dizer, absoluta, de vulgarisação dos nossos antigos escriptores, dos nossos melhores monumentos litterarios, da nossa historia, até, indicamol-a já n'outra publicação d'esta bibliotheca: é o espirito estreitamente, inconsequentemente monopolista dos eruditos ou dos que se querem dar ares de taes; é a superstição das reproducções mais ou menos arbitrariamente chamadas fieis, conservadoras de uma ortographia, de uma disposição typographica até, obsoleta, indigesta, inacessivel á leitura corrente, á assimilação immediata, actual, affectiva da multidão.
Em volta d'esta causa ou concorrendo e emparelhando com ella, muitas outras se teem accumulado e subsistem, por tal maneira renitentes e acrescentadas, que póde affirmar-se, como facto incontestavel, que as palavras doridas de Herculano teem hoje, mais do que quando elle as escreveu,—ha 56 annos!—uma applicação perfeitamente exacta e justa.