Conhecia-se mais, muito mais, então, Fernão Lopes, ou qualquer outro dos nossos antigos escriptores, do que hoje se conhecem e leem. Basta citar ou vêr o trabalho litterario d'esse tempo, comparando-o com o do nosso.

Quando eu, e certamente muitos dos leitores, iniciámos a nossa vida intellectual, lia-se, estudava-se, explicava-se o Camões nas escolas. Naturalmente, insensivelmente iam penetrando nos nossos corações e nos nossos cerebros em formação as ideas e os sentimentos de honra, de intrepidez, de amor da Patria, com tantas outras lições generosas, estimulantes, grandes, que as bellas estrophes transvasam nos espiritos sãos e frescos. Lia-se tambem o Freire d'Andrade, um massador de grandes discursos e de grandes bombardadas rhetoricas, d'accordo, mas que nos encantava, que nos ensinava muitas cousas interessantes, que nos enlevava, que nos fazia pensar em grandes cousas: nas terriveis batalhas da vida, nos sacrificios e nos esforços valentes com que ellas se vencem.

Um dia, era eu ainda um rapaselho, apanhei entre os velhos livros de meu pae:—que sabia de cór o Virgilio, o Camões, e que me recomendava o Tito Livio, o João de Barros, etc,—apanhei, pois, um volume, que nunca mais vi, e que era uma edição em 8.° da Chronica de Dom Pedro por Fernão Lopes, exactamente a que vamos lêr agora.

Devia ser a edição do Padre Pereira Bayão, do seculo 18.°, inferior á chamada da Academia sobre a qual é feita a nossa.

Como eu li sofregamente, deliciosamente, o velho livro!

Como me soube bem aquella prosa simples, ampla, forte—permittam-me a expressão;—aquelle contar ingenuo, vivo, e ao mesmo tempo tão magestoso pela sincera e nobre lealdade do chronista—que não era um adulador Real, nem um fingidor litterario!

Chronista! Historiador é que póde francamente chamar-se-lhe.

Foi a primeira revelação que tive de Fernão Lopes e só desejo que tão agradavel seja a dos que pela primeira vez travarem agora conhecimento com elle.

Poderia dizer que a vão travar simultaneamente com outros escriptores, de que Fernão Lopes se serviu ou que se serviram d'elle, mas como já disse n'outra publicação, a nossa Bibliotheca não pôde ainda entrar na tentativa das edições criticas e por isso estes pequenos prefacios não devem ensaiar essa feição que os levariam longe.

Nem mesmo podemos dar do author mais do que uns breves traços dispersos que aliás se encontram facilmente em publicações muito accessiveis.