Acabada de lêr assim esta letra, disse então o conde, presente elles todos, que elle por guarda e em nome dos infantes Dom João, e Dom Diniz, e Dona Beatriz, filhos que eram dos ditos senhores, queria tomar sendos instrumentos para cada um d'elles, e requereu ao tabellião que assim lh'os desse.
Partiram-se então todos para as pousadas, não minguando a cada um razões, que fossem entre si falando sobre esta historia.
*CAPITULO XXIX*
Razões contra isto, de alguns que ahi estavam, duvidando muito neste casamento.
Acabadas razões que ouvistes, ditas, presentes letrados e outro muito povo, aquelles que, de chão e simples entender eram, não esquadrinhando bem o tecimento de taes cousas, ligeiramente lhe deram fé, outorgando ser verdade tudo aquillo que alli ouviram. Outros, mais subtis de entender, letrados e bem discretos, que os termos de tal feito mui delgado investigaram, buscando se aquillo que ouviam podia ser verdade, ou pelo contrario, não receberam isto em seus entendimentos parecendo-lhe de tudo ser muito contra razão. Cá porque o crêr da cousa ouvida está na razão e não na vontade, porende o prudente homem que tal cousa ouve, que sua razão não quer conceber, logo se maravilha, duvidando muito. E porém, foram assaz, dos que alli estiveram, de tal historia não mui contentes, vendo que aquillo que lhe fôra proposto nenhum alicerce tinha de razão. E se alguns perguntar quizerem por que taes presumiam ser tudo fingido, as razões d'elles, que nos bem claras parecem, sejam resposta á sua pergunta, dizendo os que tinham a parte contraria, contra aquelles que defendiam ser tudo verdade, suas razões, n'esta maneira.
Não quizeram consentir os antigos que nenhum razoado homem, sendo em sua saude e inteiro siso, se pudesse d'elle tanto assenhorear o esquecimento, que toda a cousa notavel passada, sempre d'ella não houvesse relembrança.
Allegando, aquelle claro lume da philosophia, Aristoteles, em um breve tratado que d'isto compoz, o porque de todas causas presentes, ou que são por vir, não cumpre haver nenhuma memoria; ergo, das causas passadas, que já aconteceram, era necessaria a relembrança: dizendo que a memoria é dita, quando a imagem vista, ou ouvida, de alguma causa do homem, é sempre presente na virtude memorativa, e reminiscencia é, quando alguma causa, feita ou ouvida, saiu da virtude memorativa e depois torna a lembrar, por vêr outra semelhante causa.
Assim como, se eu casei, ou me foi feita uma gram mercê, ou fui chamado a um gram conselho em um dia de paschoa ou janeiro, ou outro dia assignado do anno, e depois me vem a esquecer, não o tendo sempre presente na memoria:—vendo depois outra bôda, ou alguma das causas que me advieram, em semelhante dia, lembrar-me-ha então que casei em dia de paschoa, ou outra qualquer cousa que me adveiu, se vejo alguma cousa semelhante, ou m'a perguntarem. Porque convém que me lembre o dia e a cousa, posto que me esqueça o conto dos annos ou dos dias em que foi. Ou diziam que tornava ainda a lembrar por outra contraria maneira, assim como, se eu casei em dia de paschoa e depois de alguns annos morreu-me a mulher em outro dia tal,—ou houve gram prazer em dia de natal, e depois gram nojo em semelhante dia,—necesario é que me lembre o prazer primeiro, posto que me o conto dos dias esqueça, porque é cousa que não causa disposição na memoria. Porém, o dia assignado em que me tal cousa adveiu, nunca se tira, de todo o ponto, que depois não torne a lembrar cumpridamente, porque tal dia é da essencia da relembrança, e o processo do tempo, não. E porém, não é cousa que possa ser, estando homem em sua saude, que lhe cousa notavel esqueça, posto que lhe o conto dos dias esqueça, que é transitorio, e não da essencia do lembramento.
Pois como pode cahir em entendimento de homem, diziam elles, que um casamento tão notavel como este, e que tantas razões tinha para ser lembrado, houvesse, em tão pequeno espaço, de esquecer, assim áquelle que o fez, como os que foram presentes, não lhe lembrando o dia nem o mez?
Certamente, buscada a verdade d'este feito, a razão n'isto não consente; cá, deixadas as razões, que ahi havia, para se el-rei lembrar bem quando fôra, assim como a tomada de Dona Ignez e o grande desvairo que por tal azo houve com seu padre, dês-ahi o grande tempo que tardou antes que o fizesse, e a gram deliberação com que se moveu a o fazer, e o segredo em que o poz áquelles que dizem que foram presentes; deixando tudo isto, sómente por ser feito em dia de janeiro que é primeiro dia do anno, segundo disse Estevão Lobato, demais, festa tão assignada no paço do infante e por todo o reino, isto só era bastante assaz para ser lembrado o dia em que a recebera, posto que longo processo de annos houvesse.