Outra razão notavam ainda a tudo o que ouviram parecer fingido, dizendo que, se el-rei dava em seu testemunho que, com temor e receio de seu padre, não ousara descobrir este casamento em sua vida d'elle, quem lhe tolhera, depois que el-rei morreu, que o logo não notificara, sendo em seu livre poder, pois lhe tanto prazia de ser sabido?
E mais diziam, que este feito queria parecer semelhante a el-rei Dom Pedro de Castella, que posto que, elle mandasse matar Dona Branca, sua mulher, em quanto Dona Maria de Padilha foi viva, que elle tinha por sua manceba, nunca lhe nenhum ouviu dizer que ella fosse sua mulher, e depois que ella morreu, em umas côrtes que fez em Sevilha, alli declarou, perante todos, que primeiro casára com ella que com Dona Branca, nomeando quatro testemunhas que foram presentes, os quaes por juramento certificaram logo que assim fôra como elle dizia, e desde então mandou elle que lhe chamassem rainha, posto que já fosse morta, e aos filhos infantes; e fez logo a todos fazer menagem, a um filho que d'ella houvera, que chamavam Dom Affonso, que o tomassem por rei depoz sua morte.
E porém diziam os que estas e outras razões secretamente entre si falavam, que a verdade não busca cantos, muito encoberta andava em taes feitos. Assim que, porque o entender é disposto sempre para obedecer á razão, muitos que então isto ouviram deixaram de crer o que antes criam, e pegaram-se a este arrazoado; mas nós, que não por determinar se foi assim ou não, como elles disseram, mas sómente por ajuntar em breve o que os antigos notaram em escripto, puzemos aqui parte de seu arrazoado, deixamos cargo, ao que isto lêr, que d'estas opiniões escolha qual quizer.
*CAPITULO XXX*
Como os reis de Portugal e de Castella fizeram entre si avença, que entregassem, um ao outro, alguns que andavam seguros em seus reinos.
Porque o fructo principal da alma, que é a verdade, pela qual todas as cousas estão em sua firmeza,—e ella ha de ser clara, e não fingida, mórmente nos reis e senhores, em que mais resplandece qualquer virtude ou é feio o seu contrario,—houveram as gentes por mui grão mal, um muito de aborrecer escambo que este anno entre os reis de Portugal e Castella foi feito: em tanto que, posto que escripto achemos, de el-rei de Portugal, que a toda a gente era mantenedor de verdade, nossa tenção é não o louvar mais, pois contra seu juramento foi consentidor em tão feia cousa como esta.
Onde assim adveiu, segundo dissemos, que na morte de Dona Ignez, que el-rei Dom Affonso pae de el-rei Dom Pedro de Portugal, sendo então infante, mandou matar em Coimbra, foram mui culpados pelo infante, Diogo Lopes Pacheco, e Pero Coelho, e Alvaro Gonçalves, seu meirinho-mór, e outros muitos que elle culpou; mas assignadamente contra estes tres teve o infante mui grande rancura. E fallando verdade, Alvaro Gonçalves e Pero Coelho eram n'isto assaz de culpados, mas Diogo Lopes, não, porque muitas vezes mandara perceber o infante, por Gonçalo Vasques, seu privado, que guardasse aquella mulher da sanha d'el-rei seu padre.
Pero, depois de tudo isto, foi el-rei de accordo com o infante seu filho, e perdoou o infante a estes e a outros em que suspeitava, e isso mesmo perdoou el-rei, aos do infante, todo o queixume que d'elles havia, e foram, sobre isto, grandes juramentos e promessas feitas, como cumpridamente tendes ouvido: e viviam assim seguros, Diogo Lopes e os outros, no reino, em quanto el-rei Dom Affonso viveu.
E sendo el-rei doente, em Lisboa, da dôr de que se então finou, fez chamar Diogo Lopes Pacheco e outros, e disse-lhe que elle sabia bem que o infante Dom Pedro, seu filho, lhe tinha má vontade, não embargando as juras e perdão que fizera, da guisa que elles bem sabiam; e que, porquanto se elle sentia mais chegado á morte que á vida, que lhes cumpria, de se pôrem em salvo fóra do reino, porque elle não estava já em tempo de os poder defender d'elle, se lhe algum nojo quizesse fazer. E elles se partiram logo de Lisboa, e se foram para Castella, andando então o infante Dom Pedro ao monte, além do Tejo, em uma ribeira que chamam de Canha, que são oito leguas da cidade: e el-rei de Castella os recebeu de bom geito, e haviam d'elle bem fazer, e mercê, vivendo em seu reino seguros e sem receio.
E depois que o infante Dom Pedro reinou, deu sentença de traição contra elles, dizendo que fizeram contra elle, e contra seu estado, cousas que não deviam de fazer; e deu os bens de Pero Coelho a Vasco Martins de Sousa, rico-homem, e seu chanceller-mór, e os de Alvaro Gonçalves e Diogo Lopes a outras pessoas, como lhe prouve. E fez el-rei, em alguns d'estes bens, tantas e taes bemfeitorias, e outras repartio em tantas partes, que depois que elle morresse nunca os mais podessem haver aquelles cujos foram, nem tirar áquelles a que os assim dava.