Semelhavelmente, fugiram de Castella, n'esta sesão, com temor de el-rei, que os mandava matar, Dom Pedro Nunez de Guzman, adeantado-mór da terra de Leão, e Mem Rodrigues Tenorio, e Fernão Godiel de Toledo, e Fernão Sanchez Calderon, e viviam em Portugal, na mercê de el-rei Dom Pedro, crendo não receber damno, tambem os portuguezes como os castelhanos, porque razoada fé lhes dera ousado acoutamento nas fraldas da segurança, a qual—não bem guardada pelos reis—fizeram calladamente uma tal avença, que el-rei de Portugal entregasse presos, a el-rei de Castella, os fidalgos que em seu reino viviam, e que elle, outrosim, lhe entregaria Diogo Lopes Pacheco, e os outros ambos que em Castella andavam. E ordenaram que fossem todos presos em um dia, por que a prisão de uns não fosse avisamento dos outros, e que aquelles que levassem presos os castelhanos até ao extremo do reino, recebessem os portuguezes que trouxessem de Castella.
*CAPITULO XXXI*
Como Diogo Lopes Pacheco escapou de ser preso, e foram entregues os outros, e logo mortos cruelmente.
Feito aquelle tracto d'esta maneira, foram em Portugal presos os fidalgos que dissemos.
E n'aquelle dia que o recado de el-rei de Castella chegou ao lugar, onde Diogo Lopes e os outros estavam, para haverem de ser presos, aconteceu que essa manhã muito cedo fôra Diogo Lopes á caça dos perdigões. E presos Pero Coelho e Alvaro Gonçalves, quando foram buscar Diogo Lopes, acharam que não era no logar, e que se fôra pela manhã á caça.
Cerraram então as portas da villa, que nenhum lhe levasse recado para o perceber, e attendiam-no assim, estando para o tomar á vinda.
Um pobre manco, que sempre em sua casa havia esmola quando Diogo Lopes comia, e com quem algumas vezes jogueteava, viu estas cousas como se passaram, e cuidou de o avisar no caminho antes que chegasse ao logar, e soube escusadamente contra qual parte Diogo Lopes fôra, e chegou ás guardas da porta que o deixassem sair fôra, e elles, de tal homem nenhuma cousa suspeitando, abrindo a porta o deixaram ir.
Andou elle, quanto poude, por onde entendeu que Diogo Lopes viria, e achou-o já vir com seus escudeiros, mui desegurado das novas que lhe elle levava. E dizendo o pobre a Diogo Lopes que lhe queria falar, quizera-se elle escusar de o ouvir, como quem pouco suspeitava que lhe trazia tal recado.
Afincando-se o pobre que o ouvisse, contou-lhe então áparte como uma guarda de el-rei de Castella, com muitas gentes, chegaram a seu paço para o prender, depois que os outros foram presos, e isso mesmo de que guisa as portas eram guardadas, por que nenhum saisse para o avisar.
Diogo Lopes, como isto ouviu, bem lhe deu a vontade o que era, e medo de morte o fez torvar todo, e pôr em grão pensamento.