E o pobre lhe disse, quando o assim viu:—Crê-de-me de conselho, e ser-vos-ha proveitoso: apartae-vos dos vossos, e vamos a um valle não longe d'aqui, e alli vos direi a maneira como vos ponhaes em salvo.
Então disse Diogo Lopes aos seus que andassem por alli a perto caçando, cá elle só queria ir com aquelle pobre a um valle, onde lhe dizia que havia muitos perdigões.
Fizeram-no assim, e foram-se ambos áquelle logar, e alli lhe disse o pobre, se escapar queria, que vestisse os seus saios rotos, e assim, de pé, andasse quanto podesse até á entrada que ia para Aragão, e que com os primeiros almocreves que achasse, se mettesse de soldada, e assim, com elles de volta, andasse seu caminho, e por esta guisa, ou em um habito de frade, se o depois haver pudesse, se puzesse em salvo no reino de Aragão, cá por força havia de ser buscado pela terra.
Diogo Lopes tornou seu conselho, e foi-se de pé, d'aquella maneira, e o pobre não tornou logo para a villa. Os seus aguardaram por mui grande espaço; e vendo que não vinha, foram-no buscar contra onde elle fôra: e andando em sua busca, acharam a besta andar só, e cuidaram que caira d'ella, ou lhe fugira, e buscaram-no com maior cuidado.
Foi a detença, em isto, tão grande, que se fazia já muito tarde, e vendo como o achar não podiam, levaram a besta e foram-se ao lugar, não sabendo que cuidassem em tal feito. E quando chegaram, e viram de que guisa o aguardavam, e souberam da prisão dos outros, ficaram mui espantados, e logo cuidaram que era fugido: e perguntados por elle, disseram que caçando só, se perdera d'elles, e que buscando-o acharam a besta e não a elle, e que n'aquillo foram detidos até áquellas horas, e que não sabiam que cuidassem, senão que jazia em algum logar morto. Os que cuidado tinham de o prender, foram-no buscar por desvairadas partes. E do que lhe adveiu no caminho, e como passou por Aragão, e se foi a França para o conde Dom Henrique, e de que guisa lhe fez roubar os campos de Avinhão, e de outras cousas que lhe advieram, não curamos de dizer mais, por não sair fóra de proposito.
Quando el-rei de Castella soube que Diogo Lopes não fôra tomado, houve grão queixume e não poude mais fazer: então enviou Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, bem presos e arrecadados, a el-rei de Portugal, seu tio, segundo era ordenado entres elles. E quando chegaram ao extremo, acharam ahi Mem Rodriguez Tenorio, e os outros castelhanos, que lhe el-rei Dom Pedro enviava. E alli dizia depois Diogo Lopes, falando n'esta historia, que se fizera o troco de burros por burros.
E foram levados a Sevilha, onde el-rei então estava, aquelles fidalgos que já nomeámos, e alli os mandou el-rei matar a todos.
A Portugal foram trazidos Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, e chegaram a Santarem, onde el-rei era. El-rei, com prazer de sua vinda, porém mal magoado porque Diogo Lopes fugira, os saiu fóra a receber, e, sanha cruel, sem piedade os fez por sua mão metter a tormento, querendo que lhe confessassem quaes foram na morte de Dona Ignez culpados, e que era que seu padre tratava contra elle, quando andavam desavindos por azo da morte d'ella. E nenhum d'elles respondeu a taes perguntas cousa que a el-rei prouvesse.
E el-rei, com queixume, dizem que deu um açoute no rosto a Pero Coelho, e elle se soltou então contra el-rei em deshonestas e feias palavras, chamando-lhe traidor, á fé perjuro, algoz e carniceiro dos homens. E el-rei, dizendo que lhe trouxessem cebola, vinagre, e azeite para o coelho, enfadou-se d'elles, e mandou-os matar.
A maneira de sua morte, sendo dita pelo miudo, seria mui estranha e crua de contar, cá mandou tirar o coração pelos peitos a Pero Coelho, e a Alvaro Gonçalves pelas espaduas. E quaes palavras houve e aquelle que lh'o tirava, que tal officio havia pouco em costume, seria bem dorida cousa de ouvir. Emfim, mandou-os queimar. E tudo feito ante os paços onde elle pousava, de guisa que comendo olhava quanto mandava fazer.