El-rei Dom Pedro, que vontade não havia de pelejar com elles, partiu-se de Valencia, e foi-se para Monvedro. E el-rei de Aragão chegou até duas leguas do logar, e poz sua batalha e não achou com quem pelejar, e tornou-se. E da ribeira de Monvedro viu el-rei Dom Pedro levar quatro galés suas a seis de Aragão, que as tomaram, e pesou-lhe muito d'ello.
Alli se começaram de tratar avenças entre os reis de Aragão e de Castella, a saber, que casasse el-rei Dom Pedro com Dona Joanna, filha de el-rei de Aragão, e Dom João, primogenito de Aragão com Dona Beatriz, filha de el-rei Dom Pedro, e isto com certas condições. E alli onde se juntaram para firmar as avenças, foi requerido el-rei Dom Pedro, e disse que se não achava n'aquella preitesia, e que o não requeressem mais, e d'alli se veiu para Sevilha.
E dizia el-rei Dom Pedro que, n'estes tractos, fôra fallado secretamente, que pois elle casava com filha de el-rei de Aragão, e tomava com elle tal divido, que matasse ou prendesse primeiro o infante Dom Fernando, seu irmão, e o conde Dom Henrique, que eram seus inimigos, e que pois o não fizera, que não curava de suas preitesias.
E bem parece isto ser verdade, porque el-rei de Aragão, a poucos dias, mandava prender, depois que comeu, o infante Dom Fernando, seu irmão, que tivera convidado esse dia, porque diziam que se queria ir, com as gentes que tinha, para a guerra de França. E porque se não deu á prisão, foi logo morto, e Luiz Manuel, e Diogo Perez Sarmento com elle. E todos os do reino lh'o tiveram a mui grão mal, por ser seu irmão, e mui nobre senhor como era.
E depois fez fala el-rei de Aragão com el-rei de Navarra, que matassem o conde Dom Henrique, e fingiram que falassem em um castello todos tres sobre outra cousa. E porque Dom João Ramires d'Arellano, camareiro de el-rei de Aragão, que o conde escolhera que tivesse o castello emquanto elles fallassem, não quiz consentir em ser feita tal morte, escapou o conde aquelle dia de não ser morto.
*CAPITULO XXXV*
Como el-rei Dom Pedro entrou outra vez em Aragão, com sua frota de naus e galés, e das cousas que alli fez.
Partiu el-rei outra vez de Sevilha, em começo do anno de quatro centos e dois, aos quinze annos do seu reinado, e entrou em Aragão pelo reino de Valencia, e ganhou Alicante e outros logares. E chegando a cerca de Burriana, viu galés, e outros navios, que traziam mantimento a Valencia, de que estava mui minguada, e tornou-se do caminho por lhes dar torva, e poz seu arrayal onde chamam o Grao, na ribeira do mar, que é meia legua da cidade, e esperava cada dia sua frota, e galés de Portugal que lhe haviam de vir em ajuda, e todas estavam já em Cartagena, não havendo tempo com que partir.
El-rei Dom Pedro, não sabendo novas de el-rei de Aragão, chegou um escudeiro a elle, e disse que el-rei de Aragão e o conde Dom Henrique, com todos os outros senhores e gentes, que poderiam ser tres mil de cavallo, afóra muitos homens de pé, vinham mui encobertamente por pelejar com elle, antes que d'alli partisse; e que vinham pelo mar, a geito d'elles, doze galés e outros navios com mantimentos, e que tres noites havia que não faziam fogo, por não serem descobertos, e que ao outro dia seriam com elle.
El-rei, ouvindo isto, partiu logo d'alli e foi-se a Monvedro, que eram quatro leguas. Outro dia, grande manhã, chegou el-rei de Aragão, e pousaram todos entre Monvedro e o mar, uma legua da villa, e suas galés e naves a cerca, e foi acorrida a cidade por mar e por terra. E a cabo de doze dias chegou a frota de el-rei de Castella, que eram vinte galés suas e quarenta naus, e dez galés de Portugal, que lhe enviava seu tio em ajuda.