A frota de Aragão, quando viu a de Castella, houve receio, e metteu-se no rio de Culhera. El-rei Dom Pedro entrou logo na frota, e foi-se pôr na bôca do rio, cuidando tomar as galés de Aragão. E estando alli, começou de ventar o levante, que é travessia n'aquelle logar, e mostrando o mar sua grande braveza, cuidaram todos que quebrassem suas galés em terra: e el-rei de Aragão, com todas suas gentes, aguardavam em terra por ellas, crendo todavia, por o vento que se esforçava cada vez mais, que de todo ponto eram perdidas. E a galé de el-rei perdera já tres calabres com suas ancoras, e sobre o quarto estava seu feito. Ao sol posto cessou a tormenta, e foi el-rei em mui grão perigo, e partiu d'alli deixando seus fronteiros, e tornou-se para Castella.
El-rei de Aragão cercou Monvedro e não o poude tomar, e partiu d'alli, e foi-se andar por seu reino em tanto.
E deu outra vez volta el-rei de Castella, e partiu de Sevilha, e entrou por Aragão, e tomou alguns logares. E os da villa de Orihuela, cuidando de ser cercados, fizeram-no saber a el-rei de Aragão, e veiu logo com seu poder, a duas leguas de onde el-rei de Castella estava, e abasteceu-a de viandas de que era minguada.
E el-rei Dom Pedro não quiz pelejar com elle, mas esteve alguns dias por aquella terra, e tornou-se para Sevilha, e achou novas como as suas galés, que andavam pelo mar, tomaram cinco galés de Aragão, e foi-se logo a Cartagena, onde estavam, e mandou matar toda a gente d'ellas, que não escapou sómente um, salvo os que sabiam fazer remos, porque os houve mister.
D'alli partiu el-rei Dom Pedro para Murcia, sabendo como el-rei de Aragão cercara Monvedro, e foi cercar a villa de Orihuela que dissemos, e ganhou a villa e o castello, e tornou-se para Sevilha. Os de Monvedro, afincados do cerco e sendo minguados muito de viandas, requeriam muito a mercê de el-rei que lhes accorresse; e el-rei, porque lhes não podia accorrer senão por batalha, não era ousado de o fazer, cá elle não queria pelejar com el-rei de Aragão, receiando-se dos seus, de que muito não fiava. E porém buscava outras maneiras de guerra e não por batalha, cá el-rei Dom Pedro por muitos que mandara matar, e pelos do reino que sabia que eram d'elle mal contentes e o desamavam, não se atrevia a pôr o campo.
Os de Monvedro minguados de viandas, em guisa que já comiam as bestas e ratos, deram a el-rei de Aragão o logar por preitesia. E eram dentro, para o defender seiscentos homens de armas, afóra peões e bésteiros, e os mais d'elles ficaram com o conde Dom Henrique, por grande receio que haviam de el-rei, não embargando o accorrimento que d'elle haver não puderam.
*CAPITULO XXXVI*
Como o conde Dom Henrique entrou por Castella com muitas companhas, e foi alçado por rei; e como el-rei Dom Pedro mandou desamparar todos os logares que em Aragão tinha filhados.
Monvedro ganhado por el-rei de Aragão, foi-se para Barcelona, e vieram alli alguns capitães das companhias por que elle mandava, e firmaram com elle de ser alli no fevereiro seguinte, para entrar em Castella com o conde Dom Henrique. El-rei Dom Pedro soube d'isto parte e foi-se a Burgos, onde mandára juntar suas gentes. Entanto aquelle e os capitães das companhias, eram juntos, e partiram de Saragoça para entrar em Castella.
E vinham ahi capitães de Aragão, a saber, o conde de Denia, e Dom
Filippe de Castro, e outros cavalleiros; e de França, Mosse Beltrão de
Claquin, e o conde das Marchas, e o sr. de Bain, e o marechal de
Andemar, marechal de França, e outros cavalleiros. E de Inglaterra,
Mosse Boitro de Carvabai, Mosse Estacio, e Mosse Martim de Gorimai, e
Mosse Guilhem Allinante, e Mosse João de Obrens, e muitos outros
cavalleiros e homens de armas de Inglaterra, e de Guiana, e de Gasconha,
e d'outras nações.