El-rei Dom Pedro estando em Sevilha, soube novas d'estas cousas todas, e posto em grão pensamento, accordou com os seus de enviar pedir ajuda a el-rei de Portugal, seu tio. E por lhe dar mór cargo de se mover a lhe fazer tal ajuda, enviou-lhe dizer que bem sabia como era posto casamento da infante Dona Beatriz, sua filha, com o infante Dom Fernando seu primogenito filho, e que porém lhe mandava a dita infante e toda a quantia do haver que era posto de lhe dar ao tempo do casamento, e que essa Dona Beatriz ficasse herdeira dos reinos de Castella, e de Leão. E mandou-a logo de Sevilha, e com ella Martim Lopez de Trujillo, um homem de que elle muito fiava, e mais certa quantia de dobras que deixara a esta infante Dona Maria de Padilha, sua madre, com joias, e aljofar, e outras cousas.

E partida Dona Beatriz de Sevilha para Portugal houve el-rei Dom Pedro novas como el-rei Dom Henrique caminhava de Toledo para Sevilha, e accordou de enviar pelo thesouro que tinha no castello de Almodovar, que era todo em moedas de prata e de oiro, e fez armar uma galé em que o poz, com todo o haver que tinha na cidade, e entregou a galé a Martim Yanhez, seu thesoureiro, e mandou-lhe que se fosse a Tavira, villa de Portugal no reino do Algarve, e que alli attendesse a galé, até que elle fosse. E tambem mandou carregar muitas azemolas de seus thesouros, e levou comsigo mui grande haver de oiro, e pedras, e aljofar assim do que tomara a el-rei Vermelho e aos seus, como de outro muito que tinha junto, e isso mesmo da prata toda a que poude levar.

E el-rei estando assim para partir de Sevilha, disseram-lhe como os da cidade se alvoroçavam contra elle, e o queriam roubar alli onde estava: e com grão temor que houve, partiu-se logo para Portugal. E levou comsigo Dona Constança, e Dona Isabel, suas filhas, cá Dona Beatriz, a maior, havia já mandada, como dissemos. E iam com el-rei Dom Pedro, Martim Lopes de Cordova, mestre d'Alcantara, e Diogo Gomes de Catanheda, e Pero Fernandez Cabeça-de-vacca, e outros.

E segundo alguns escrevem, como el-rei partiu de Sevilha, taes ahi houve, dos que iam com as azemolas do haver, que vendo como el-rei fugia do reino por aquella guisa, se tornavam para a cidade com o que levavam, e outras saiam do logar e lhe roubaram parte d'aquelle haver. E Misser Gil Boca-negra, seu almirante, que era genovez, armou em Sevilha uma galé e outros navios, e foi tomar a galé do haver, em que ia Martim Yanhez para Tavira, no rio Guadalquivir, cá ainda não era mais arredado. E era o haver, que ia em ella, trinta e seis quintaes de oiro, e outras muitas joias, de que el-rei Dom Henrique depois houve a maior parte.

*CAPITULO XXXVIII*

De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu tio que era em seu reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer ajuda.

El Rei de Portugal, em esta sesão, pousava nos paços de Vallada, que são a cerca de uma villa que chamam Santarem, e era isto no mez de maio. E quando el-rei Dom Pedro, mandou sua filha Dona Beatriz, como anteagora ouvistes, para casar com o infante D. Fernando, por azo de haver melhor ajuda de el-rei seu tio, soaram primeiro novas em Vallada, onde pousava el-rei, que el-rei de Castella lhe mandava duas suas filhas, que estavam já nas Alcaçovas, que são d'alli vinte leguas; mas não sabiam dizer certamente porque as mandava a el-rei, nem em que intenção. El-rei de Portugal, que parte não sabia que el-rei seu sobrinho era em tal pressa posto, cuidando que as infantes vinham por outra maneira, porém que não era mais que aquella uma, mandava correger casas e camaras em seus paços, em que ellas bem podessem pousar.

El-rei de Castella partiu de seu reino, e tão trigoso andar poz no caminho, sem se detendo em nenhum logar, que antes que sua filha chegasse onde el-rei de Portugal estava, a achou elle no caminho em que vinha. E chegou el-rei Dom Pedro a Serpa, e d'alli a Beja, e dês-ahi a Coruche, que eram vinte e uma leguas d'onde el-rei seu tio estava, e d'alli lhe fez saber como vinha, e a ajuda e accorrimento que lhe d'elle cumpria, e isso mesmo o casamento de sua filha com o infante Dom Fernando, seu filho.

El-rei de Portugal, como isto soube, teve bem assaz em que cuidar, e mandou-lhe dizer que não fosse mais adiante, mas que estivesse alli até que visse seu recado. E mandou chamar o infante Dom Fernando seu filho, que não era ahi, e com elle e com seus privados houve conselho sobre este feito, e foi falado por alguns que o visse e acolhesse em seu reino, e que o ajudasse a cobrar sua terra. Dês-ahi, cuidando bem n'isto, acharam que o não podia el-rei fazer sem grandes trabalhos, e gasto, e mui grão damno de seu reino, e, o peior de tudo, não ter nenhumas azadas razões como tal feito podesse vir a acabamento, quejando cumpria, porque, el-rei Dom Henrique, seu irmão, tinha já toda Castella a seu mandar, salvo alguns logares, tão poucos, de que não era de fazer conta; e com isto haviam lhe grande odio todos os do reino, assim grandes como pequenos. De guisa que bem era de cuidar quanto todos fariam por cobrar em elle; pois quem houvesse de lançar fóra de Castella el-rei Dom Henrique e todos os da sua parte, assim por batalha como por guerra guerreada, grão poderio lhe convinha ter, e, não se fazendo segundo seu desejo, ficava ao depois em grande homisio e guerra com elle. Recebel-o outrosim em seu reino, e não trabalhar de o ajudar, era-lhe grande vergonha e prasmo; dês-ahi, vendo-o e falando-lhe, não se poderia escusar d'elle.

Porém accordaram que o mais são conselho era que o não visse elle nem o infante seu filho, buscando algumas rasões coloradas por que parecesse que direitamente se escusava.