Então foi a Coruche o conde Dom João Affonso Tello, onde el-rei de Castella estava esperando a resposta de seu tio, cuidando de ser aposentado em Santarem, e disse-lhe como el-rei vira seu recado, e soubera parte da sua vinda de que guisa era, e que elle de boa mente o recebera em seu reino e o ajudara a cobrar sua terra, como era razão e direito, mas que por então não estava em ponto de o poder fazer como cumpria, porque d'aquellas vezes que lhe elle fizera ajuda, assim por mar como por terra, os fidalgos de seu reino vieram d'elle e de suas gentes mui mal contentes e escandalisados; e que vinham em sua companha taes, com que alguns houveram razões, e que era por força haver entre elles grandes bandos e arruidos, o que a serviço d'ambos pouco cumpria. Além d'isto, que sabia bem como o infante Dom Fernando, seu filho, era sobrinho da rainha Dona Joanna, que então novamente entrara em Castella, irmã de sua madre Dona Constança, filha de Dom João Manuel, e que não entendia de postar com elle que lhe muito prouvesse de tal ajuda. E foi assim certamente, segundo alguns escrevem, que o infante deu grão torva, porém razoada, em este feito. Com estas e outras razões escusou o conde el-rei seu senhor, que elle áquelle tempo o não podia vêr, nem lhe fazer mais ajuda da que feita havia; e despediu-se d'elle, e foi-se para a pousada.

*CAPITULO XXXIX*

Como el-rei de Castlla partiu de Coruche, e se foi de Portugal; e quaes enviaram em sua companha.

Não embargando as razões que dissemos, e outras muitas que faladas foram entre el-rei de Castella e o conde sobre o feito de seu negocio, bem entendeu el-rei Dom Pedro que o fim de todos seus ditos era não haver el-rei seu tio vontade de lhe dar acolhimento em seu reino, nem lhe fazer ajuda por nenhuma guisa: e houve d'isto tão grande queixume, que não poude com sua vontade que o logo não desse a entender por algum modo.

E depois que o conde com elle falou, e se despediu e se foi para a pousada, ficou el-rei triste e melancolioso, e com torvado gesto tomou dobras, que tinha na mão, e deitou-as por cima de um alpendre das casas onde pousava. Um cavalleiro de sua companha, vendo isto que el-rei fazia, disse-lhe, como sorrindo, por que deitara assim aquellas dobras, cá melhor fôra dal-as a alguns dos seus, a que prestassem; e el-rei lhe respondeu dizendo: «não cureis d'isso, cá quem as semeia as virá depois colher»; dando a entender, se seus annos tão poucos não foram, que elle lhe fizera de bom talante guerra, por não achar então em elle ajuda nem acolhimento nenhum. E houve seu accordo de se ir a Albuquerque e deixar ahi as filhas e todas suas cargas; e chegando ao logar não o quizeram em elle acolher, antes se lançaram dentro alguns dos que iam em sua companha.

E el-rei, vendo como seus feitos iam cada vez peior, mandou dizer a el-rei de Portugal, seu tio, que pois lhe outra ajuda fazer não queria, que lhe enviasse carta de seguro, por que podesse passar por seu reino: e isto fazia elle temendo-se do infante Dom Fernando de Portugal, por ser sobrinho da mulher de el-rei Dom Henrique, como dissemos.

A el-rei de Portugal prouve muito, e enviou a elle o conde de Barcellos, que ouvistes, e Alvaro Peres de Castro, que se fossem com elle pelo reino, e o puzessem em salvo em Galliza. E elles se foram por elle, e começaram de andar seu caminho, e quando chegaram á Guarda, segundo alguns contam, disseram elles alli a el-rei que se queriam tornar e não podiam ir mais com elle, porquanto se receiavam do infante Dom Fernando, que os enviara ameaçar por irem assim em sua companha, e que el-rei lhes deu então seis mil dobras, e duas cintas de prata, e dois estoques, que se fossem com elle até Galliza. E se assim adveio por esta guisa, isto foi fingido que elles disseram, cá o infante não tinha razão de lhes tal cousa mandar dizer, pois, com seu accordo, fôra ordenado em conselho que o acompanhassem até fóra do reino. E dizem que chegaram com elle até Lamego, e mais não. E á partida lhe furtou o conde uma filha de el-rei Dom Henrique, seu irmão, que el-rei levava presa comsigo, de idade de quatorze annos, que chamavam Dona Leonor dos leões, porque el-rei Dom Pedro, por queixume que de seu padre havia, sendo esta moça em poder de sua ama, nada de mui poucos mezes, com grão crueldade a mandou tomar, e, esfaimados os leões que criava antes por um dia, no curral onde andavam mandou que lh'a lançassem em camisa, e foi assim feito como elle mandou. E os leões vieram, e chegaram-se a ella, e prouve a Deus que lhe não fizeram nenhum nojo, mas assim como se d'ella houvessem piedade, se chegavam a ella sem lhe fazerem outro mal. Foi isto dito a el-rei por alguns seus, e mandou-a el-rei tirar d'alli, e entregar áquelles que a criavam, e poz-se porém em ella tal guarda, que nunca seu padre a poude haver. E levava-a el-rei então comsigo, e o conde a trouxe a el-rei de Portugal, e depois foi entregue a el-rei Dom Henrique, seu padre.

*CAPITULO XL*

Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo de São Thiago, e se foi para Inglaterra.

Partiu de Lamego el-rei de Castella, assaz desamparado e com mui pouca gente, cá não iam com elle mais que até duzentos de cavallo, e chegou a Monte-rei, uma villa de Galliza, e d'alli escreveu a Logronho, e a Soria, e a Samora, que tinham sua voz, que se esforçassem, cá elle lhes accorreria.