—Pois que sou das raras organisações eleitas, e pelo verso se volatilisam maguas, etc..., por que me não farei poeta, e publicarei tambem um volume de folhas e cascas? A ociosidade indispõe-me com o povo. Quero pelo trabalho reconduzir-me ao seu respeito. Escreverei para ser grande.
Pôz-se então a rimar com toda a gana, os assumptos nobres da sua côrte, virtudes e birras domesticas das açafatas e damas de honor, as dôres de dentes do grande chanceller que punham o gabinete em crise, um ou outro parto feliz da sua galga favorita, attingindo mesmo uma ode sobre a baixa dos algodões, muito gabada no corpo do commercio.
Esta nova phase governativa creou-lhe hostilidades e carinhos na imprensa e classes obreiras. Os republicanos compararam-no a Nero dedilhando lyra, á face de Roma estorcida em clarões de incendio. Nos grupos de mundanos corria em risadinhas surdas o dito mordaz d’um certo marquez Fulgencio, ao ouvir lêr a real ode. E a maioria saudava no excelso rei um d’esses genios poeticos, mandados por Deus de onde a onde, á glorificação dos povos, que por sua doçura, esforços, sabedoria ou martyrios, muito haviam bemerecido da omnipotencia.
Duas sortidas ou tres, jogadas pelo gordo Menelau á popularidade que lhe escorregava e fugia, o certificaram da boa impressão que nos animos deixára a nova da sua coqueluche poetica. Eram lojistas que vinham á porta com os metros em attitude, pessoas que lhe faziam adeusinho nas ruas, dois jornalistas ou tres que lhe sorriam como a collegas, descobrindo calvas de vasta auctoridade e saber. E d’uma vez que a sua caleche se virou por conselho do ministerio, n’uma das grandes ruas da cidade, mais de mil pessoas vieram offertar ao soberano, pedaços de adhesivo e outras miudezas de affecto. Já a sua bella face de moleiro ruborescia n’um bem-estar regalado, e os reaes olhos de goraz, velados em palpebras somnolentas, ousavam fitar por um certo tempo, menos assustadiços e supplicantes, a turba-multa das ruas, entrevista nos passeios de carruagem. Dizia-se em geral:
—Mas é um homem intelligente, nosso rei Menelau. Escreve, por exemplo.
Para desculpal-o das incoherencias de governo e certo esbanjamento dos dinheiros, os amigos opinavam:
—Que diabo! Um poeta!
E nos centros litterarios, como as suas rimas largavam por analyse, descamações de caspa e esquirolitas de veado, esses mesmos amigos juntavam:
—Como ha de ser bom poeta nosso rei Menelau, afadigado como anda nas coisas da governação? O reino atravessava um periodo singular. A industria de engeitar filhos, deixando de ser monopolio das altas classes, democratisava tresvairada, por toda a matulagem de beccos e cabanas de aldeia e cidade. Quem roubava de cem contos para cima era absolvido e condecorado; quem tirava um lenço ou um pataco ia degredado por toda a vida. Os juizes escolhiam-se entre forçados, e os titulares entre pulhas. Evidenciando um cynismo mordaz que era moda, os primogenitos diziam nos salões ás ricas herdeiras: